Como alguém com uma personalidade tão fraca e submissa seria capaz de abandonar o filho amputado sozinho em um hospital? Era algo verdadeiramente incompreensível.
Glaucia também sentiu que havia algo de muito errado nessa história.
Mas de uma coisa ela tinha certeza: Napoleão havia extorquido uma fortuna de Tatiana e definitivamente estava escondido na Cidade G. Se eles estavam na mesma cidade, não havia lógica em não visitarem o próprio filho. Aquilo era suspeito ao extremo.
Como Glaucia permaneceu em silêncio, Palmira continuou a despejar as informações:
— Eu ouvi o César dizer que, depois da amputação, o Tadeu ficou com um temperamento infernal. Ele tem brigado feito um louco com aquela velha amante nos últimos dias. O cara vivia arrotando que o que eles tinham era amor verdadeiro e te tratou daquele jeito. Ver ele acabar nessa miséria... é a prova de que Deus não dorme.
Ao mencionar o estado deplorável de Tadeu, as feições de Palmira se iluminaram. Ela sentia que a justiça finalmente havia sido feita em nome de Glaucia.
— O César e o Tadeu ainda são tão próximos assim? — perguntou Glaucia, casualmente.
Tadeu era um poço de maldade. Independentemente do caráter de César, a proximidade com Tadeu sempre fez Glaucia temer que César fosse influenciado por ele e acabasse decepcionando Palmira novamente.
Palmira pensou por um momento antes de responder:
— Acho que não. Ultimamente, o Tadeu tenta chamar o César para qualquer coisinha, mas o César já deu várias desculpas para não ir. Depois que terminou a cirurgia, ele meio que perdeu a vontade de ver o Tadeu, e a relação deles esfriou bastante. Eu sinto que o César está propositalmente se afastando dele. Ele realmente mudou bastante em comparação ao que era antes.
Enquanto falavam, o celular de Palmira tocou. Era César pedindo o endereço do restaurante para buscá-la.
Palmira não fez cerimônia e passou a localização. Em seguida, voltou-se para Glaucia:
— Eu não sei explicar os detalhes direitos, mas o César já está vindo. Você mesma pode perguntar a ele sobre o Tadeu quando ele chegar.
Em menos de meia hora, César apareceu. Ele ainda trazia consigo aquele cheiro clínico e gélido de hospital. Ao ver Glaucia, cumprimentou-a com extrema polidez e, naturalmente, sentou-se ao lado de Palmira.
Ao notar o copo de suco com gelo na frente de Palmira, ele franziu a testa:
— Você está quase no seu período menstrual. Não deveria beber coisas geladas agora. Troque por um copo de leite quente.
— Dr. César, você gosta de mandar em tudo, não é? — retrucou Palmira.
César não se abalou:
— Já que fui eu quem tirou você da Capital e a trouxe para cá para se recuperar, sou responsável por todos os indicadores da sua saúde. Obedeça.
Palmira revirou os olhos, mas não contestou. César continuou:
Quando Tadeu precisava usar o banheiro, ela ficava parada olhando, proibia as enfermeiras do hospital de ajudá-lo por puro ciúme doentio, falhava miseravelmente em fazer o trabalho sozinha e, para culminar, ligava para César por qualquer imprevisto. A situação estava levando César a um colapso nervoso.
Para piorar, Tadeu, que escolheu se casar com aquela atrocidade, estava em um estado mental deplorável. Ele agia como um zumbi, apático e indiferente às idiotices diárias de Hortência.
Por diversas vezes, César considerou simplesmente lavar as mãos e abandonar os dois à própria sorte.
Mas, pesando a amizade de infância e o fato de Napoleão ter implorado pessoalmente por ajuda, ele não teve escolha a não ser engolir a frustração e continuar auxiliando.
Apenas de lembrar das burrices monumentais de Hortência, César sentiu uma dor de cabeça latejante. Ele optou por poupar Glaucia desses detalhes ridículos e mudou o tom da conversa:
— Srta. Glaucia, já que você está na Cidade G, aconselho que tome cuidado. Outro dia, acabei ouvindo um trecho de uma das brigas do Tadeu com a Hortência. Ao que parece, ele ainda tem uma obsessão doentia por você.
— E sobre o Napoleão, você tem alguma notícia? — perguntou Glaucia, cortando o assunto sobre Tadeu.
A informação trazida por Palmira de que o casal Napoleão e Vitória havia evaporado no ar, abandonando Tadeu, deixava Glaucia com um pressentimento sombrio.
— O tio Napoleão... Eu sinceramente não faço ideia. O Tadeu tentou ligar para ele várias vezes recentemente, mas ele nunca apareceu. Ele apenas depositou uma quantia exorbitante para cobrir as despesas médicas no hospital e me instruiu a ficar de olho no Tadeu, para que ele não saísse perambulando por aí. — respondeu César.
Desde que aquele casal pisou na Cidade G, era como se tivessem sido engolidos pela terra. Até mesmo César achava bizarra a forma como eles repentinamente descartaram Tadeu.

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