Ela girou a maçaneta.
Mas a porta não se abriu.
Uma mão grande e pesada surgiu acima da dela, pressionando o metal contra o batente com força suficiente para impedir qualquer movimento. Lorena sentiu o calor dos dedos de Dante sobre os seus, a respiração dele agora mais próxima do que ela imaginava.
- Calma - disse ele, a voz mais baixa, quase rouca. - Eu ainda preciso de você para arrumar essa confusão.
Lorena virou o rosto lentamente. Ele estava ali, perto demais, os olhos fixos nela com uma intensidade que ela não sabia interpretar. Parecia desesperado - mas não pelo vazamento. Não apenas por isso.
- Dante, o que…
Ele recuou de repente, como se tivesse acabado de perceber o que fez. A mão deixou a porta, os dedos se fechando ao lado do corpo enquanto ele dava um passo para trás.
- Senta - pediu, a voz de volta ao tom controlado, mas havia algo ali. Algo que não combinava com a frieza habitual.
Lorena obedeceu, ainda confusa. Sentou-se na cadeira em frente à mesa, os olhos seguindo cada movimento dele. Dante não se sentou. Começou a andar de um lado para o outro, as mãos passando pelo cabelo, a postura despojada e firme que ele sempre mantinha agora desalinhada.
- Amanhã, quando a bolsa abrir, as ações da empresa vão despencar - disse, mais para si mesmo do que para ela. - Os acionistas vão me pressionar. Vão pedir explicações, vão querer sangue.
Lorena sentiu o peso da culpa apertar o peito novamente.
- E se eles souberem que eu trouxe a ex-mulher do meu inimigo para a empresa - continuou Dante, agora parado diante da janela - vão tentar me substituir. Vão alegar que perdi o juízo, que coloquei interesses pessoais acima dos negócios.
- Dante… - ela começou, mas ele levantou a mão, interrompendo.
- Você não tem culpa de nada. Nada. Fui eu quem o provoquei. Por minha vontade. Desde o começo. E se não fosse você… eu teria provocado ele de outras formas. Piores. Ele sempre jogou sujo - isso não é novidade. A diferença é que dessa vez ele te arrastou para o meio. E isso… - a voz dele falhou por um segundo - foi baixo demais. Mesmo para ele.
Dante passou a mão no rosto, os dedos pressionando as têmporas como se estivesse forçando a mente a encontrar uma saída. A ideia que acabara de ocorrer era ousada demais. Arriscada demais. Se ela percebesse, se recusasse, tudo estaria perdido.
- Como posso ajudar? - Lorena perguntou, a voz firme. Ela se levantou, aproximando-se. - O que quer que seja, eu faço.
Ele virou o rosto devagar, os olhos encontrando os dela.
- Eu tenho um plano - disse, reticente.
- Qual?
Dante hesitou. As mãos suavam, as pernas tremiam - algo que não acontecia com ele desde muito tempo. Sentou-se na borda da mesa, forçando o corpo a ficar imóvel, mas a perna começou a balançar nervosamente.
- Se… se nós nos casássemos…
A frase pairou no ar.
- Se a gente se casar, você não pode ser chamada de espiã de um inimigo. Vai ser mais fácil conseguir o tempo que eu preciso para provar sua inocência e pegar o verdadeiro espião de Rafael aqui na empresa.
Lorena ficou em silêncio. Os olhos fixos nele, processando, tentando encontrar ali alguma armadilha. Dante não conseguia ler a expressão dela. O coração batia rápido demais, os dedos suados, a perna balançando em um ritmo que ele não conseguia controlar.
O nervosismo dele, pensou Lorena, era pelo vazamento. Pelo desastre que ela havia causado, mesmo sem querer. A culpa por ter arruinado os negócios da única pessoa que lhe estendeu a mão, que a ajudou sem pedir nada em troca.
A demora estava matando Dante. Cada segundo era uma eternidade. Ele já abria a boca para dizer que era uma ideia idiota, que ela esquecesse, que eles dariam outro jeito - quando ela finalmente falou.

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