Durante a estadia no hospital, o quarto da pequena Julia e seus pais eram os mais visitados de toda a maternidade, mas uma visita foi diferente.
O corredor da maternidade estava silencioso.
As luzes eram baixas, os passos dos enfermeiros abafados, o som dos monitores bipando ao fundo. O cheiro de antisséptico e lençóis limpos se misturava a algo novo, o perfume discreto dos primeiros cuidados com um recém-nascido.
Jorge Menezes caminhou devagar.
A bengala já não era mais um adereço de poder. Era uma necessidade. As mãos, que outrora comandaram impérios com um gesto, agora tremiam levemente. O terno ainda era impecável, mas o corpo não acompanhava mais a elegância da roupa.
Ele parou diante da porta do quarto.
Pela janela de vidro, viu a cena.
Laura e Jonas estavam ao lado da cama, Laura com os olhos marejados, Jonas com a mão no ombro da mulher. Alexandre estava no fundo, recostado na parede, os braços cruzados, um sorriso discreto no rosto.
Dante segurava Lorena pela cintura.
E no colo dele, embrulhada em uma manta branca, uma pequena figura.
Julia.
O velho Menezes ficou imóvel.
A imponência de outrora havia desaparecido. Não havia mais a postura de quem espera ser servido, o olhar de quem avalia um adversário. Havia apenas um homem velho, cansado, observando uma cena que ele mesmo destruíra décadas atrás.
Julia.
O nome ecoou dentro dele.
O mesmo nome da filha que ele perdeu.
A filha que ele amou mais do que qualquer coisa no mundo.
A filha cuja morte ele nunca conseguiu perdoar, nem a si mesmo, nem ao mundo, nem ao neto que ficou.
E agora, ali estava uma nova Julia.
Carregando o mesmo nome. O mesmo sangue. O mesmo legado.
Ele não entrou.
Não pediu permissão.
Apenas ficou ali, do lado de fora, observando.
Os olhos marejados.
A mão na bengala tremendo um pouco mais.
- Me desculpa - sussurrou.
A voz saiu baixa, quase inaudível. Ele não sabia se falava com Dante, com Lorena, com a pequena Julia ou com a filha que se fora.
Talvez com todos eles.
Talvez consigo mesmo.
Virou-se devagar.
Os passos de volta pelo corredor foram mais lentos do que na ida.
A bengala ecoou no piso de vinil.
E ele desapareceu na curva, sem olhar para trás.
Depois de receber alta, Dante levou suas duas mulheres favoritas dirigindo tão devagar para não correr o risco de machucá-las que até as bicicletas os ultrapassavam.
O carro parou na garagem da mansão.
Dante desligou o motor, mas não se moveu imediatamente. Olhou para o banco de trás, onde o bebê conforto estava preso. Julia dormia, os lábios entreabertos, os bracinhos para cima.
- Ela está quieta demais - sussurrou.
- Está dormindo - Lorena respondeu, cansada, mas sorrindo.
- E se ela parou de respirar? Vamos conferir
- Dante…
- Eu só vou olhar.
Ele saiu do carro, abriu a porta traseira com cuidado, e encostou o ouvido na boquinha da filha. A respiração dela era leve, mas constante.
- Tá viva - disse, aliviado.
- Eu te disse.
- Eu precisei verificar.
Laura e Jonas já estavam na porta da mansão, os olhos marejados, os braços abertos. Laura apertou Lorena contra o peito, chorando baixo.
- Minha filha…
- Estou bem, mãe.
- Você é muito corajosa.
Jonas apertou a mão de Dante. Não disse nada. Não precisava. O aperto foi firme, longo, com a força de quem finalmente confiava.
Alexandre chegou meia hora depois.
Trazia a mala do carro lotada de presentes para a netinha.

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