A gravidez foi tranquila. Um verdadeiro milagre, considerando tudo o que Lorena havia passado para chegar até ali.
Os médicos acompanharam cada semana com atenção redobrada. Havia consultas frequentes, exames repetidos e recomendações que Dante levava mais a sério do que a própria equipe médica. Mas, contra todos os medos, tudo corria bem.
O coração da bebê era forte.
Os exames vinham perfeitos.
E a cada ultrassom, a pequena parecia encontrar uma nova forma de lembrar aos pais que estava ali.
No terceiro mês, Lorena anunciou que voltaria ao trabalho presencial.
- Nem pensar - foi a primeira resposta de Dante.
Ela cruzou os braços.
- Eu nem terminei a frase.
- Não precisava.
- Dante...
- Lorena...
Ela respirou fundo, já acostumada.
- Minha gravidez é saudável. O médico liberou. Eu me sinto bem. Eu fiquei anos parada. Anos. Não vou ficar mais tempo em casa só porque estou grávida
Dante abriu a boca para argumentar.
Não encontrou nada.
Porque, no fundo, sabia que ela tinha razão e ele jamais conseguiria convencê-la.
- Promete que vai me avisar se sentir qualquer desconforto?
Lorena estendeu o dedo mindinho.
- Prometo.
Ele suspirou antes de entrelaçar o próprio dedo ao dela.
- Essa promessa não tem valor nenhum.
- Tem sim.
- Você mente.
- Só um pouquinho.
Apesar da reclamação constante, Dante acabou cedendo.
Isso não significava que ele havia parado de se preocupar.
Muito pelo contrário.
A partir daquele dia, passou a aparecer no escritório quase diariamente.
Às vezes chegava perto do almoço carregando frutas cortadas, sanduíches naturais e sucos que preparava pessoalmente.
- Sua esposa é muito sortuda - disse a recepcionista, certa vez.
- Eu sou o sortudo - ele respondeu, com a simplicidade de quem diz uma verdade.
Também ia buscá-la no fim do expediente. Chegava antes do horário, estacionava em frente, e esperava. Não admitia que ela fizesse horas extras.
À noite, quando o inchaço nas pernas aparecia, Dante fazia massagens enquanto conversavam sobre assuntos aleatórios.
Numa dessas noites, Lorena observou a mão dele acariciando sua barriga.
A pequena respondeu com um chute.
Dante sorriu imediatamente.
- Viu isso?
- Acho que ela está puxando o pai.
- Impossível. Ela tem bom gosto.
Lorena revirou os olhos.
- Amor...
- Hum?
- Depois que ela nascer, você ainda vai cuidar de mim desse jeito?
Dante levantou a cabeça.
Havia uma vulnerabilidade inesperada naquela pergunta.
Como se parte dela ainda não acreditasse merecer tanto amor.
Ele se inclinou e beijou sua testa.
- Nosso bebê vai ser minha princesinha.
A mão dele deslizou para a barriga dela.
- Mas você sempre vai ser minha rainha.
- Isso foi extremamente brega.
- Eu sei.
- Muito brega.
- E vou ficar ainda pior quando ela nascer, e você tem que aceitar porque eu sou seu marido brega, para sempre.
As lágrimas que surgiram nos olhos de Lorena vieram acompanhadas de um sorriso.
- Eu te amo.
- Eu também te amo.
Os meses passaram depressa.
No terceiro trimestre ela pegou um caso delicado, Lorena agora ja pegava casos sozinha, mas esse foi especial.
Uma mulher de quarenta e dois anos, casada há dezoito, com três filhos. O marido a controlava em tudo: dinheiro, roupas, amizades, horários. Não permitia que ela trabalhasse. Não permitia que ela visitasse a própria família. Não permitia que ela tivesse um cartão de crédito no próprio nome.
Lorena leu o processo e sentiu um arrepio.
Era como folhear um álbum de fotografias antigas.
Ela mesma.
No passado.
- Eu vou pegar esse caso - disse a Bruno.
- É pesado.
- Eu sei.
- A outra parte vai tentar de tudo, pra acabar com a reputação e dignidade dessa mulher.
- Eu sei.
- Mesmo assim quer?
- Mesmo assim.
Bruno a observou por um segundo. Depois assentiu.
- Então é seu.
A audiência foi marcada para uma quarta-feira, estava na reta final da gestação.
Lorena acordou cedo, o nervosismo no estômago, a barriga pesada, a mente girando.
- Você não deveria ir - Dante disse, da porta do banheiro.

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