A porta se fechou atrás de Lorena com um clique suave.
Mas, dentro da sala, o impacto da decisão ainda vibrava no ar.
Dante permaneceu imóvel por um segundo.
O olhar ainda fixo na porta, como se, a qualquer momento, ela fosse se abrir novamente e Lorena voltasse para dizer que aquilo tinha sido um erro. Que tinha pensado melhor. Que nada daquilo fazia sentido.
Mas ela não voltou.
Ela disse sim.
Um sorriso surgiu.
Pequeno no começo.
Quase imperceptível.
E então cresceu - lento, inevitável, impossível de conter por completo.
Dante passou a mão pelo rosto, como se tentasse reorganizar os próprios pensamentos, mas o gesto não adiantou muito. Havia algo ali que ele não sentia há muito tempo.
Algo leve.
Algo perigosamente próximo de felicidade.
- Você está sorrindo?
A voz de Theo o puxou de volta à realidade.
Theo estava ali, apoiado na mesa, a pasta esquecida na mão, os olhos estreitos analisando cada detalhe da expressão do amigo.
- Isso é… novo - completou.
Dante pegou o copo de água esquecido na mesa e bebeu sem pressa, comprando alguns segundos até que a expressão voltasse ao controle habitual.
Quando virou novamente, o sorriso já não estava ali.
Ou, pelo menos, não completamente.
- Eu vou me casar. Você precisa me parabenizar.
Theo ergueu uma sobrancelha, deixando a pasta cair sobre a mesa.
- Você está apaixonado há tanto tempo que começou a ter alucinações? - fez um gesto vago com a mão.
Dante apoiou as mãos na mesa, olhando por um segundo para os papéis espalhados, mas claramente sem enxergar nada.
- Eu pedi ela em casamento.
Silêncio.
Theo não reagiu de imediato.
Como se estivesse esperando o resto da frase.
- Você… o quê?
- Pedi ela em casamento.
Dessa vez, mais claro.
Mais direto.
Mais real.
Theo soltou uma risada curta.
Não de humor.
De incredulidade.
- Não… - balançou a cabeça. - Não, você não fez isso.
Dante sustentou o olhar.
Fez.
Theo tomou o copo de água das mãos dele e começou a andar em círculos pela sala, como se precisasse se mover para processar aquilo.
- Você perdeu completamente o juízo - murmurou.
Dante não respondeu.
- No meio de uma crise dessa - Theo continuou, parando na frente dele - com um vazamento desse tamanho, a imprensa prestes a te devorar vivo… você resolve inventar um casamento?
Dante cruzou os braços.
- Foi impulsivo, mas…
Theo riu de novo.
- Ah, claro. Desculpa. Um plano estratégico altamente racional.
O sarcasmo escorreu pela frase.
Dante ignorou.
- É a forma mais rápida de proteger ela.
- Proteger? - Theo repetiu. - Você acabou de colocar ela no centro de um escândalo muito maior.
- E fora disso ela seria destruída, você sabe que o Rafael só fez isso para que ela ceda.
Silêncio.
Theo sustentou o olhar por alguns segundos.
E, dessa vez, não rebateu.
Porque ele sabia.
Sabia que, sem aquilo, Lorena seria o alvo mais fácil.
- Como… ela aceitou essa loucura? - perguntou, por fim.
Dante não respondeu imediatamente.
Mas o leve desvio do olhar foi suficiente.
Theo arregalou os olhos.
- O que você fez? Usou alguma estratégia desonesta, não foi?
Dante virou o rosto.
- Não foi desonesta. Ela quis ajudar. - ele parecia um pouco envergonhado - Então você sabe que os acionistas vão me pressionar… e a única forma de ninguém dizer que eu trouxe uma espiã pra dentro da empresa… é se ela for minha esposa.
Theo apontou para ele.
- Você inventa a proposta mais absurda da história corporativa moderna… e ela caiu nisso?
Uma pausa.
- Você tem noção do quão ingênua ela é?
Dante não respondeu.
Mas o maxilar se contraiu levemente.
- E você - Theo continuou, inclinando-se - o que exatamente pretende fazer quando ela descobrir?
Dante ergueu os olhos.


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