O jato cortava o céu em velocidade máxima.
Alexandre estava deitado em uma das poltronas reclináveis, um cobertor improvisado sobre o corpo, a camisa encharcada de sangue. A respiração era curta, irregular, e a palidez do rosto contrastava com o preto do couro do assento.
Dante estava ao seu lado, a mão do pai apertada entre as suas, a outra pressionando um pano contra o ferimento. O sangue já não escorria com tanta força o sangramento estava mais lento agora mas ainda molhava o tecido, ainda tingia os dedos de Dante de vermelho.
- Fica comigo - Dante disse, a voz baixa, firme. - A gente ainda tem tanta coisa pra conversar.
Alexandre tentou sorrir. O rosto se contraiu em um movimento que não conseguiu completar.
- Não vou… a lugar nenhum… - sussurrou.
Dante apertou a mão dele.
O resto do caminho foi feito em silêncio. Gonçalo e os homens ficaram na parte traseira da aeronave, organizando o helicóptero de resgate médico e coordenando a equipe de resgate em solo.
O jato pousou no fim da tarde.
O sol estava baixo no horizonte, pintando o céu em tons de laranja e vermelho.
Dante se levantou, dando espaço para a equipe transferir Alexandre para a maca, e desceu os degraus da aeronave com cuidado o tornozelo ainda doía, o corte onde a armadilha havia se fechado ainda latejava a cada passo. Mancava visivelmente, mas não parou.
O helicóptero de resgate já estava com as hélices girando, a poucos metros do jato. A hélice cortava o ar com um zumbido constante, e o vento levantava os cabelos de quem se aproximava.
- Vamos! - Gonçalo gritou, abrindo a porta lateral.
A maca com Alexandre foi carregada para dentro do helicóptero, presa com cintas de segurança. Dante subiu atrás, sentando ao lado do pai. Aperrou a mão dele, agora completamente inconsciente
- Fica comigo - ele repetiu tantas vezes essa frase que parecia uma prece.
O helicóptero decolou.
O barulho das hélices era ensurdecedor, mas Dante não se importava. O chão ficou para trás, e a cidade se estendeu lá embaixo, as luzes começando a acender, os carros se movendo como formigas.
A viagem durou poucos minutos.
O heliponto do hospital apareceu no horizonte - uma plataforma elevada, cercada por grades de proteção, com as luzes de pouso já acesas. No momento em que o helicóptero tocou o solo, uma equipe de paramédicos e enfermeiros já estava a postos, correndo em direção à aeronave.
- Paciente com ferimento por arma de fogo no peito! - alguém gritou. - Perda significativa de sangue!
Alexandre foi retirado do helicóptero com cuidado, coberto com cobertores térmicos. A partir daí o atendimento foi rápido e eficiente .
- Pressão instável. Pulso fraco - informou um dos paramédicos.
- Levem direto para o centro cirúrgico! A equipe já está avisada.
A maca era levada rapidamente pelos corredores do hospital até o elevador.
Dante tentou acompanhá-la, mas o tornozelo doeu mais forte. Mancou, apoiou a mão na parede do corredor por um segundo, recuperou o equilíbrio.
Gonçalo estava atrás dele.
- Dante, você também precisa ser atendido. Seu tornozelo…
- Depois - Dante interrompeu, já caminhando mancando em direção ao outro elevador. - E a Lorena onde ela está?
Gonçalo suspirou, sabendo que não adiantava discutir.
- Segundo andar. Na maternidade.
Nesse momento o elevador chegou com um bip as portas abriram, enquanto enfermeiros e pacientes saiam Dante não esperou mais nada.
O elevador parecia não descer nunca.
Dante olhou para o display, os números mudando lentamente. Apoiou o peso na perna boa, respirou fundo.
Segundo andar.
As portas se abriram.
O corredor da maternidade era movimentado. Médicos, enfermeiras, familiares. Alguns rostos felizes, outros preocupados, outros apenas cansados.
Ela estava sentada no banco de plástico encostado na parede.
O vestido ainda estava o mesmo da fuga - manchado de terra, rasgado em alguns lugares, o cabelo preso de qualquer jeito. As mãos estavam apoiadas nos joelhos, os dedos entrelaçados com força. O olhar estava perdido em algum ponto no chão.

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