Duas semanas se passaram desde o resgate.
O hospital tinha se tornado a segunda casa de Lorena. Ela conhecia cada corredor, cada máquina de café que funcionava e cada uma que estava eternamente quebrada.
O caminho da entrada até o quarto de Alexandre havia sido percorrido tantas vezes que ela já não precisava pensar.
Alexandre estava internado no terceiro andar.
Os primeiros dias foram os piores. A cirurgia foi longa horas que Lorena havia passado numa cadeira de plástico ao lado de Dante, assistindo o relógio com aquela atenção inútil de quem sabe que olhar não adianta nada mas não consegue parar. A recuperação havia sido incerta nos primeiros dias, os médicos usando palavras que eram tecnicamente informação mas que na prática significavam não sabemos ainda. Dante não havia saído do hospital uma única vez.
Ele dormia na poltrona ao lado da cama, acordava a cada mudança no ritmo dos equipamentos.
Lorena trazia roupas, comida. Tentava convencê-lo a ir para casa tomar um banho decente, dormir algumas horas numa cama de verdade.
Ele recusava.
- Eu não vou deixar ele sozinho - repetia, sempre a mesma frase, com a mesma voz de quem encerrou o assunto antes de abrir.
Em uma das inúmeras vezes que tentava convencê-lo, Lorena viu que Alexandre estava acordado e escutando os dois, viu algo passar pelo rosto do homem que não era bem sorriso mas tinha a mesma temperatura. Ela havia parado de insistir depois disso.
Rafael também estava internado, no quarto andar, sob escolta policial.
Os tiros que Gonçalo havia ordenado não foram para matar, mas para parar. A mão direita de Rafael jamais recuperaria os movimentos finos. A perna esquerda havia sido salva, mas os danos nos nervos eram permanentes.
O médico havia sido claro. Rafael mancaria pelo resto da vida.
A polícia havia decretado prisão preventiva assim que ele teve condições de ser ouvido, sequestro, cárcere privado, tentativa de homicídio, associação criminosa. A lista era longa e cada item tinha provas. Os advogados do Grupo Menezes chegaram rápido tentando minimizar as acusações, mas mesmo eles não conseguiram.
O velho Jorge, sentindo o cheiro do prejuízo antes mesmo de ele chegar completamente, afastou-se do neto publicamente com uma nota fria e calculada, deixando claro que Rafael jamais herdaria o grupo.
Jorge Menezes era eficiente até no abandono.
Nina se recuperava na ala das mães, no segundo andar.
O corpo voltava ao normal aos poucos. Mas os olhos continuavam vazios, perdidos em algum lugar.
Os médicos diziam que era depressão pós-parto. As enfermeiras, nos corredores, em voz baixa, cochichavam outra coisa.
Ela disse que a criança agora não vale nada.

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