O primeiro pensamento foi de terror.
Os braços a procuraram antes dos olhos abrirem a casca áspera, o galho largo, a única coisa sólida que havia existido nas últimas horas. As mãos fecharam em punho e encontraram tecido macio e o corpo entendeu que algo estava errado antes que a mente pudesse explicar o quê.
O alarme veio inteiro, de uma vez.
Músculos contraindo, respiração cortando, o peso de algo pontiagudo e frio se movendo pelo peito sem avisar.
Lorena abriu os olhos.
O teto era baixo e curvo. Uma janela oval à sua direita mostrava escuridão e nuvens. O som era diferente da ilha ao invés do constante som de ondas quebrando tinha um zumbido constante, mecânico, o tipo de vibração que vem de dentro das paredes.
Um jato.
Ela estava novamente em um jato.
O pensamento de Rafael chegou antes do ar, ela se levantou de supetão, as mãos empurrando, a respiração cortando.
- Ei. Ei, estou aqui.
A voz chegou antes das mãos. Mãos que não prenderam seguraram. A diferença entre as duas coisas era enorme e o corpo de Lorena soube qual era qual antes que a mente processasse.
Ela virou o rosto.
Dante.
Ele estava sentado ao lado dela, inclinado para frente, os olhos vermelhos, fundos, com uma expressão de dor e expectativa. A camisa estava rasgada num ombro, a manga suja de terra e folha seca. O cabelo uma bagunça para todos os lados.
- Acabou - disse ele, a voz baixa e firme. - Estamos voltando para casa.
Lorena ficou olhando para ele.
O cérebro ainda estava alguns segundos atrás ainda estava na mata, ainda estava na árvore, ainda estava contando as lanternas e segurando a respiração. Mas os olhos viam Dante. As mãos sentiam o assento abaixo delas e não a casca áspera de um galho. O ar cheirava a cabine de aeronave e não a terra molhada.
O tremor veio sem aviso.
Começou nos ombros e desceu as mãos, os joelhos, o queixo que ela pressionou com força tentando segurar. Não funcionou. O corpo havia segurado tudo por tempo demais e agora não havia mais como negociar com ele.
Dante se moveu.
Não disse nada apenas abriu os braços, e ela foi. Sem pensar, sem decidir, apenas foi o rosto no ombro dele, as mãos fechando no tecido da camisa, o tremor continuando mas agora havia algo sólido ao redor dele e isso fazia diferença.
Ele a segurou com as duas mãos. Uma nas costas dela, firme. A outra no cabelo, devagar.

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