A árvore era grande.
Dante parou embaixo dela e olhou para cima. A luz que chegava entre as copas ainda era fraca - aquele azul cinzento de antes do amanhecer que tornava tudo sombra e contorno. Ele desligou a lanterna.
Ficou em silêncio por um momento.
- Lorena.
A voz saiu baixa. Não era um chamado - era quase uma conversa, o tipo de tom que se usa quando se sabe que a pessoa está ouvindo mas ainda não decidiu se vai responder.
Nada.
- Sou eu.
O vento mexeu nas folhas acima. Dante não desviou os olhos da copa.
- Você está segura. Os homens dele foram rendidos. Gonçalo está na mansão. - Uma pausa. - Acabou, Lorena.
Um movimento. Pequeno, quase imperceptível - o ajuste de alguém que estava completamente imóvel e deixou o corpo relaxar um milímetro sem querer.
Ela estava lá.
Dante sentiu algo no peito que não tinha nome exato - alívio e dor ao mesmo tempo, a confirmação de que ela estava viva misturada com a consciência do que ela havia passado para chegar até aquela árvore no escuro.
- Pode descer - disse, ainda no mesmo tom. - Estou aqui embaixo.
Silêncio.
Depois, uma voz. Rouca, pequena, o tipo de voz de quem passou horas sem falar e não tem certeza se as cordas vocais ainda funcionam direito.
- Dante?
O nome saiu como uma pergunta e como uma prece ao mesmo tempo.
- Sou eu.
O movimento nas folhas foi maior dessa vez. Galhos se mexendo, a casca áspera raspando - e então ela desceu, devagar, um galho de cada vez.
Lorena sentia todos os músculos rígidos, cada galho descido custando mais do que o anterior.
Dante avançou quando ela chegou ao último galho.
As mãos dela encontraram os ombros dele antes que os pés tocassem o chão. Ele a segurou pela cintura, tomou o peso dela, e ela deslizou do galho para os braços dele com um som pequeno que não era bem um choro e não era bem um suspiro - era as duas coisas fundidas em algo que não cabia em nenhuma categoria.

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