Depois de falar o homem parou a uma distância respeitosa.
Dante virou o rosto.
- A mulher grávida - disse o homem, a voz baixa. - Entrou em trabalho de parto na ilha, senhor. Os homens que ficaram para trás estão tentando administrar a situação mas ela está com dores fortes e o intervalo entre as contrações está diminuindo. Não temos ninguém com treinamento médico suficiente para lidar com um parto de emergência.
Uma pausa.
- E Rafael ainda não foi localizado.
O silêncio que se seguiu durou apenas um segundo, o tempo que Dante levou para calcular distâncias, tempo de voo e recursos disponíveis.
- Assim que deixarmos a senhora em casa - disse, a voz já no modo de quem está resolvendo um problema - o jato volta para buscar ela. Vou acionar um médico para estar em solo quando aterrissarem.
- Não.
A voz veio do lado dele.
Dante virou o rosto.
Lorena havia se afastado levemente do ombro dele. As mãos já procuravam o comunicador que ficava no painel ao lado do assento, ela o encontrou sem hesitar, verificou o botão, e abriu o canal com a cabine antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
- Comandante.
- Senhora? - A voz chegou clara pelo aparelho.
- Temos combustível suficiente para voltar à ilha antes de seguir para casa?
Uma pausa curta. O tipo de pausa de quem verifica instrumentos antes de responder.
- Sim, senhora. Com margem suficiente.
- Obrigada.
Ela desligou o comunicador com um clique seco. Virou o rosto para Dante.
- Vamos voltar.
Ele a olhou por um segundo. Apenas um o tempo suficiente para ver que não havia hesitação naqueles olhos, que a decisão já havia sido tomada.
Depois assentiu.
O homem voltou em direção à cabine para passar a instrução ao comandante. Antes de desaparecer pela divisória, parou.
Virou-se para Lorena com uma expressão que ela não esperava ver num homem daquele tipo alguém treinado para operações que não constavam em nenhum manual corporativo, alguém que havia passado a noite numa ilha rendendo homens armados sem mudar a expressão uma vez sequer.
Ele a olhou com algo que misturava respeito e incredulidade.
- A senhora tem certeza? - disse, devagar, como se precisasse confirmar que havia entendido certo. - Voltar pra lá depois de tudo que…
- São duas vidas - Lorena interrompeu, a voz calma, sem espaço para negociação. - Uma delas ainda nem nasceu. - Uma pausa de meio segundo. - Nós não somos os vilões dessa história.

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