Thalita seguiu seu olhar e, como se só então tivesse percebido, imediatamente exibiu uma expressão de desculpas.
— Graciana, não entenda mal. O Lucca só me deu o primeiro pedaço porque eu ajudei a arrumar a festa hoje. Não é que ele não se importe com você.
Graciana não disse nada.
Thalita deu um passo à frente, com a voz ainda mais suave: — As crianças são muito ingênuas, sabem? Se aproximam de quem passa mais tempo com elas e lembra de tudo que gostam. Graciana, você tem estado muito ocupada ultimamente.
Graciana de repente sorriu.
Um sorriso muito contido.
— Eu tenho estado muito ocupada?
Os olhos de Thalita vacilaram: — Eu não estou te culpando. Só acho que, já que você quer voltar a trabalhar, eu posso te ajudar com algumas das coisas de casa.
Ajudar com as coisas de casa.
Como aquela frase soava atenciosa.
Igual quando eram pequenas, na época em que Thalita quis tomar suas aulas de piano para si, Madalena falava exatamente dessa forma.
— Graciana, a saúde da Thalita não é boa e ela é sensível. Você é a mais velha, deixe ela aprender.
Mais tarde, quando Thalita quis o quarto dela, Otávio disse: — Sua irmã tem sono leve, o quarto virado para o sul tem um sol bom. Mude-se para o quarto de hóspedes.
E depois, quando Thalita quis estudar no exterior e o dinheiro da família Venturini estava curto, Otávio foi procurá-la e disse, em tom paternal: — Graciana, você casou com um Monteiro, não falta esse dinheiro para você. A Thalita é sua irmã, dê uma ajuda a ela.
Ela ajudou.
Mensalidades, despesas, cartas de recomendação para estágios. Ela ajudou com tudo.
Porque sempre achou que era o papel da irmã mais velha.
Porque sempre achou que, cedendo um pouco, a casa ficaria mais em paz.
Mas Thalita nunca se deu por satisfeita com as concessões dela.
Ele provavelmente tinha saído para procurar alguém, e havia impaciência em seu rosto.
Ao vê-lo, Thalita abaixou imediatamente a cabeça, como se estivesse contendo uma mágoa profunda.
O olhar de Cristiano passou pelas duas e, por fim, pousou no rosto de Graciana.
— O que foi agora?
Agora.
Aquele pouco de dor que restava no coração de Graciana desabou de vez.
Ele nem precisava perguntar o que havia acontecido.
Bastava que Thalita ficasse com os olhos vermelhos, bastava que as duas estivessem juntas, e a culpa seria sempre dela.
Thalita apressou-se em dizer: — Cristiano, não foi nada. A culpa foi minha, eu não deveria ter falado demais. A Graciana provavelmente só está cansada.

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