— Não pode ser?
— Eu lembro que a família dele tinha bastante dinheiro, não tinha?
— Como ele viria fazer exame para esse tipo de coisa?
A enfermeira fez um bico:
— Quem sabe? De qualquer forma, é o que está escrito na guia de solicitação.
— Você sabe como é, esse pessoal do entretenimento sempre brinca de forma mais intensa.
— Desta vez, deve ter brincado demais e se deu mal.
As duas enfermeiras se entreolharam e sorriram com cumplicidade.
...
Henrique levou três horas para concluir todos os itens dos exames seguintes.
O problema dos hospitais públicos era exatamente esse: antes de fazer o exame, cada profissional de saúde que atendia Henrique podia ver sua guia e seus sintomas.
Henrique não sabia quantos olhares sutis havia recebido ao longo desse caminho.
Felizmente, ele persistiu e conseguiu terminar todos os exames.
Assim que os procedimentos terminaram, Henrique saiu do hospital sem parar e foi direto para casa.
Mas, para sua surpresa, mal tinha dado um passo para fora do portão do hospital quando seu celular começou a vibrar como um chamado da morte.
Henrique olhou para o identificador de chamadas.
Sra. Rabelo.
A Sra. Rabelo só ligava para ele com alguns poucos objetivos.
Henrique teve um mau pressentimento e sentiu uma resistência interna; não queria atender.
Mas a Sra. Rabelo era sua patrocinadora. Ele ainda não havia terminado de pagar a multa contratual e, se quisesse ter futuro, não podia ofendê-la.
Henrique respirou fundo e atendeu o telefone, suavizando a voz deliberadamente.
— Sra. Rabelo...
Do outro lado da linha veio a voz preguiçosa e autoritária da mulher:
— Querido, o que está fazendo de bom?
— Eu consegui mais um bom trabalho para você.
— Hoje à noite, no lugar de sempre. Aproveite para tomar um banho e se arrumar bem. À noite, mandarei um carro te buscar.


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