Por mais difícil que fosse, não podia ser tão óbvio. Pelo menos as aparências deveriam ser mantidas.
— Eu sei. — Camila o interrompeu, com a voz calma. — Por isso não a maltratei.
Gervásio ficou em silêncio.
Ele suspirou:
— Não é esse o ponto.
Camila largou os talheres e ergueu os olhos para ele:
— Então qual é o ponto?
Seu olhar era frio, mas carregava uma agudeza inquestionável:
— Desde que ela voltou para a família Costa, dei a ela a melhor comida, as melhores roupas e empregados à disposição 24 horas por dia. O que mais você quer que eu faça?
— Quer que eu a trate como uma divindade?
— Eu não quis dizer isso.
Gervásio ficou em silêncio por um momento e disse em voz baixa:
— Pelo menos... faça um esforço para manter as aparências. Pelo menos...
Não a trate como se fosse invisível.
Se continuasse assim por muito tempo, quem aguentaria?
Camila soltou uma risada leve, que parecia carregar um tom de escárnio.
— Se eu sorrir para ela, ela vai esquecer como entrou para a família Costa?
Gervásio podia ser magnânimo e perdoar Amália, mas ela não!
Ela não esquecera por causa de quem sua preciosa filha ainda não podia voltar para casa!
Gervásio franziu a testa:
— Querida!
Camila levantou-se, com tom frio:
— Estou satisfeita. Bom apetite.
Ela se virou e saiu, com as costas retas e distantes.
...
A sala de jantar da família Costa era separada da sala de estar apenas por um aparador divisório.
Embora não falassem alto, Amália, sentada na sala, conseguiu ouvir claramente a conversa.
Antes, por medo de que a família Costa descobrisse a gravidez, ela nem ousara ir ao hospital.
Quando voltou para a família Oliveira, apenas conseguiu medicamentos para segurar a gravidez, sem coragem de ir à obstetrícia para um ultrassom.
Portanto, aquela era a primeira vez que Amália veria a criança com clareza.
Enquanto a médica aplicava o gel, Gervásio estava ao lado, observando a tela com um olhar gentil.
Marcelo, por sua vez, estava encostado na parede, com uma expressão fria, como se aquilo não tivesse nada a ver com ele.
Assim como Gervásio dissera.
Para não levantar suspeitas em Gustavo, e pelo bem do neto na barriga de Amália, Gervásio exigiu que toda a família estivesse presente no exame.
A sonda do ultrassom deslizou suavemente sobre o abdômen.
De repente, um som rápido de "tum-tum-tum" ecoou do aparelho.
Eram os batimentos cardíacos do feto.
O quarto inteiro ficou em silêncio.
Todos olharam simultaneamente para a tela.
Embora o som fosse baixo, era impossível não perceber como era forte e vigoroso.

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