Havia ali um grande ipê amarelo, e sob a árvore, uma mesa de pedra com um tabuleiro de xadrez esculpido.
Wallace estendeu a mão e tocou o tabuleiro, com tom nostálgico.
— Flávia costumava sentar aqui e jogar xadrez com o pai quando era criança.
Ele levantou a cabeça "olhando" para Aeliana. Embora seus olhos fossem vazios, Aeliana sentiu inexplicavelmente que ele a encarava.
— Aeliana, a Flávia te escolher como aprendiz não foi coincidência.
Sua voz era rouca, mas cada palavra era clara.
— Ela viu não só o seu talento, mas também o seu caráter.
Aeliana ficou em silêncio por um momento e finalmente perguntou o que a intrigava:
— Qual é a sua relação com a Flávia... afinal?
Wallace sorriu. A cicatriz em seu rosto parecia assustadora, mas seu olhar estava surpreendentemente suave.
— Essa pergunta é importante para você?
Aeliana assentiu:
— Importante.
Mas Aeliana também sabia que, antes de completar o desafio, Wallace não lhe contaria a verdade.
Aeliana caminhou até o ipê, os dedos roçando suavemente a casca grossa da árvore.
— Eu vou completar o seu desafio.
— Quando isso acontecer, você só precisa cumprir sua promessa. Saberei tudo o que preciso saber.
Wallace assentiu, girou a cadeira de rodas para encará-la e revelou uma surpresa.
— Te trouxe aqui hoje para dizer que esta casa será sua, como aprendiz da Flávia, contanto que você me cure, embora você não tenha sangue da família Porto.
Ele fez uma pausa, o tom ficando sério.
— Mas lembre-se, herdar este lugar significa que você também herdará a missão da Flávia.
Aeliana ergueu uma sobrancelha:
— Que missão?
Wallace não respondeu diretamente, mas devolveu com uma pergunta.
— Você sabe por que a Flávia foi presa?
Aeliana travou.
Nos anos de prisão, Flávia raramente mencionava o passado.
A única coisa que sabia era que Flávia havia sido presa por "exercício ilegal da medicina".
Wallace pareceu adivinhar o que ela pensava e riu friamente.
— Exercício ilegal? Ha... isso foi só uma desculpa.
— Certo.
...
No carro de volta, Aeliana olhava a paisagem passar pela janela, perdida em pensamentos.
A casarão da família da Flávia, a identidade de Wallace e a tal "missão"...
Tudo parecia apontar para um mistério muito maior.
Ao chegarem à acomodação na comunidade, Wallace pediu a Décio que trouxesse uma caixa de madeira antiga do quarto e a entregou a Aeliana.
— Pegue.
A voz dele era rouca, mas com um tom que não aceitava recusa.
Aeliana pegou a caixa, abriu a tampa e encontrou um caderno amarelado, com "Casos Médicos de Flávia" escrito caprichosamente na capa.
Seus dedos tremeram levemente.
Aquela letra...
Era o caderno pessoal da Flávia!
Aeliana abriu a primeira página e a letra familiar surgiu diante de seus olhos.
O caderno registrava linhas de raciocínio para diagnósticos de várias doenças complexas e combinações de remédios, e até algumas técnicas de acupuntura criadas por Flávia, com anotações densas ao lado.

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