Contudo, o sorriso não durou muito em seu rosto.
Mais do que aqueles laços sentimentais e efêmeros, a sobrevivência era a verdadeira base de Leonardo neste mundo cruel.
Sem hesitar novamente, ele deu dois passos à frente.
Os sapatos de couro reluzentes pisaram no espesso tapete persa, emitindo um som abafado e opressivo, como um mau presságio.
Ele parou diante de Amália e falou num tom um pouco mais brando do que o habitual, como se estivessem apenas conversando sobre o tempo.
— Amália, a pequena já dormiu?
Amália, imersa na paz passageira proporcionada pelo rosto adormecido da filha, ergueu a cabeça ao ouvir a voz e abriu um leve sorriso ao ver o pai.
— Sim, acabou de pegar no sono. Mamou e agora está dormindo como um anjo.
Sua voz saiu baixa, com medo de acordar a criança.
— Que bom que está dormindo bem.
Leonardo assentiu, demorando o olhar no rostinho corado e saudável, enquanto uma emoção complexa e difícil de decifrar perpassava seus olhos.
Em seguida, ele ergueu a cabeça para olhar para Amália. O tom continuava sereno, mas a filha percebeu a hesitação quase invisível na voz dele.
Leonardo fez uma pausa, como se estivesse escolhendo as palavras, olhou ao redor da sala que Amália havia decorado para ficar tão aconchegante, olhou para a bebê ignorante do mundo nos braços da filha e, por fim, quebrou o silêncio. A voz saiu um pouco mais grave desta vez.
— Amália, a pequena está sendo muito bem cuidada e você também parece estar com uma aparência melhor, o que é ótimo.
Ele hesitou, mudando de assunto. O tom parecia de quem tentava propor um acordo, mas carregava um ar de recusa intolerável.
— Só que o papai estava pensando... embora aqui seja bom, não é uma solução a longo prazo. Nós... talvez precisemos mudar para um lugar mais adequado por um tempo.
O sorriso terno no rosto de Amália desapareceu de uma vez, como se tivessem jogado um balde de água fria em cima dela.
Um traço de confusão cruzou seus olhos, logo sendo substituído pela ansiedade. Seus braços apertaram instintivamente a bebê, e sua voz saiu cheia de incerteza, com um leve toque de rejeição.
— Pai?
Ela não conhecia a fundo a família Saramago; só sabia que eram aliados importantes de seu pai na Vila das Nuvens Cinzentas, com origens complexas e uma rede de poder intrincada.
Até a família Saramago estava com "problemas"?
De que magnitude devia ser isso?
— O que aconteceu exatamente? Como foram pegos tão de repente?
— Nós... não fomos sempre tão cuidadosos?
— Alguns riscos não podem ser evitados totalmente só com cuidado.
Leonardo ajeitou-se novamente na poltrona, de frente para a filha, encarando-a com um olhar sombrio, e suavizou o tom para tranquilizá-la.
— Quando a árvore cai, todo mundo quer tirar lenha.
— Com a queda da família Saramago, é inevitável que alguém queira bagunçar ainda mais as coisas e espalhar o incêndio para outros lugares.

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