Esse novato... é bem bonito, e tem uma aura diferente. Não parece o tipo de pessoa comum que veio só para enrolar no trabalho.
Esse pensamento passou pela cabeça de Silvana, mas logo foi engolido por uma fúria ainda maior.
O que importava se ele era bonito ou especial?
Tinha acabado de chegar, não entendia nada da situação, e aquele canalha do Francisco já queria jogar um projeto tão importante nas costas dele. Isso não era uma armadilha descarada?
Ela respirou fundo, forçando-se a desviar a atenção de Rodrigo, e olhou para a cara de pau de Francisco. Sem conseguir conter a raiva e a insatisfação acumuladas nos últimos dias, o tom de sua voz subiu bruscamente ao questioná-lo.
— Francisco! Você não tem vergonha na cara?
— Estou te cobrando esse projeto há um mês, você só enrolou, inventou desculpas, e até agora não tem nem um rascunho!
— Agora que a apresentação é amanhã, você quer jogar tudo para um novato que acabou de chegar? Você acha isso razoável?
— O que diabos você ficou fazendo este mês inteiro? Olhando o celular, batendo papo, dando ordens aos novatos, mas trabalhar que é bom, nada, não é?
Quanto mais falava, mais irritada ficava, o peito subindo e descendo ofegante. Seu olhar varreu os funcionários ao redor, que espiavam com aquela cara de quem não tinha nada a ver com o assunto, e uma profunda sensação de impotência e tristeza a invadiu.
Era isso que era a Eixo&Forma Engenharia & Construção...
A diretoria empurrava com a barriga, os funcionários antigos faziam corpo mole, os novatos eram humilhados. Quem tinha alguma competência e queria trabalhar, ou já tinha ido embora, ou estava desiludido.
O faturamento caindo mês a mês, os clientes fugindo... Que esperança ainda restava para essa empresa falida?
Um pensamento claro surgiu em sua mente.
Pelo visto, era hora de atualizar o currículo e procurar outro emprego o mais rápido possível.
Esse lugar não tinha mais salvação.
Exposto por Silvana na frente de todos, o rosto de Francisco alternou entre o vermelho e o pálido. Mas, diante de tanta gente, ele jamais daria o braço a torcer, especialmente para não perder a pose na frente do "novato".
Ele esticou o pescoço e também elevou a voz, tentando esconder a própria insegurança com o volume.
— Sra. Rabelo! Não é bem assim que as coisas funcionam! Como eu não fiz nada?
A voz de Rodrigo não era alta, soava até pacífica, mas cada palavra era clara e firme, cortando a gritaria arrogante de Francisco.
— Primeiro, o trabalho que o Iran me passou foi 'me familiarizar com a empresa'. Ele não me designou para acompanhar nenhum veterano, nem me encarregou de assumir tarefas de planejamento.
— Segundo, o projeto que a Sra. Rabelo precisa tem o prazo final para amanhã, e a responsabilidade é sua.
Ele fez uma pausa, o olhar varrendo as roupas amassadas e a arrogância de Francisco:
— Quanto ao que o senhor mencionou antes, sobre comprar café ou jogar o lixo fora, isso não faz parte das minhas obrigações atuais.
— Se a empresa precisar, que isso seja solicitado pelos canais adequados.
— E quanto às divergências de trabalho entre o senhor e a Sra. Rabelo, acredito que não tenho o direito, nem a intenção, de me intrometer.
Aquelas palavras lógicas, fundamentadas e cheias de atitude foram um tapa na cara de Francisco.
Alguns funcionários que ouviam tudo disfarçados não conseguiram evitar trocar olhares, visivelmente surpresos.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Despertar Depois dos 1460 dias