— Tenho tido muita dor nas costas esses últimos dias e mal consigo me mexer. E o seu pai daquele jeito... não dá para contar com ele para nada.
— Esta casa simplesmente não anda sem você.
— Faz só alguns dias e, sem você aqui, virou essa bagunça.
Daniela olhou para as costas dele enquanto ele arrumava tudo em silêncio. Longe de ter qualquer intenção de ajudar, ela apenas acenou com a mão, apontando para a desordem ao redor, com um tom cheio de queixas como se tivesse toda a razão do mundo.
— Eu já estou arrumando, não estou?
Rodrigo finalmente abriu a boca, com a voz baixa e profunda, carregando uma rouquidão reprimida.
Ele pegou uma marmita estragada, cujo caldo derramou, deixando sua mão grudada e oleosa.
Aquele cheiro pungente de gordura rançosa misturada com temperos estragados invadiu violentamente suas narinas. O estômago de Rodrigo revirou de forma incontrolável e ele teve que fazer um esforço imenso para não vomitar ali mesmo, seu rosto perdendo ainda mais a cor.
Daniela percebeu de relance a palidez súbita dele e a mão suja de óleo. Seu tom suavizou um pouco, mas o conteúdo de suas reclamações não parou, ganhando até um tom de vitimização:
— Não fique só recolhendo isso. Aquela marmita que você trouxe ontem tinha tanta gordura, estava tão oleosa... como alguém consegue comer aquilo? Eu e seu pai mal tocamos na comida.
— Seu pai mal conseguiu tomar duas colheres de caldo ralo, com certeza deve estar morrendo de fome agora.
Na cadeira de rodas, Gustavo permanecia imóvel, com a cabeça pendendo de lado e o rosto amarelado sem qualquer expressão.
Enquanto falava, Daniela lançou um olhar para a sacola de pães adormecidos na mão de Rodrigo, entortando a boca com repulsa.
— Rodrigo, não me diga que vamos comer só isso esta noite? Não tem sustância nenhuma.
— Rodrigo, agora que você está num emprego mais estável, o salário deve ser razoável, não?
— Não podemos continuar improvisando desse jeito, a saúde vem em primeiro lugar.
Ele tinha que acordar de madrugada, antes de o sol nascer, suportando o cansaço e a dor de cabeça, para esquentar apressadamente alguns pães franceses da véspera ou refogar qualquer resto do jantar no fogão. Depois, dividia tudo em duas porções: uma para o sustento diurno dos pais e a outra para levar consigo.
À noite, não importava o quão tarde chegasse, com o corpo doendo como se estivesse desmontando, ele ainda precisava encarar a pilha de pratos na pia.
Às vezes, quando o esgotamento chegava ao limite e faltava força até para acender o fogo e ferver água, Rodrigo só podia trazer as marmitas mais baratas do restaurante onde fazia bico.
Como agora.
Ouvindo as indiretas de Daniela, Rodrigo terminou de limpar a sujeira e de higienizar o ambiente. Em silêncio, desceu as escadas com os sacos de lixo e os jogou na lixeira da esquina do prédio.
A noite já ia alta e a brisa noturna trazia um frescor frio.
Ele ficou parado no andar de baixo, olhando para a placa do pequeno restaurante ali perto e para os parcos clientes em seu interior. Seu estômago estava vazio, mas ele não sentia apetite algum.
Rodrigo hesitou por um momento, mas acabou entrando. Tirou uns trocados do bolso e pediu duas quentinhas econômicas, com uma carne e dois acompanhamentos.

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