— Esta é a última vez.
Ele falou devagar, com cada palavra soando como se tivesse sido tirada de uma câmara frigorífica:
— Lembre-se da sua posição e do seu dever.
— Você não passa de um lacaio, um cachorro que faz o meu trabalho.
— E cachorros não devem ter ideias próprias nem sentimentos.
— Se houver uma próxima vez...
Ele se curvou levemente, aproximando-se do ouvido de Leonardo. Sua voz era baixa e cheia de uma maldade de arrepiar, como o sibilar de uma cobra peçonhenta.
— Não me importaria em trocar por um mais obediente e sensato.
— Quanto a você... e à sua filha preciosa e à sua neta, podem ir todos juntos... virar comida de peixe.
— Afinal, reciclar lixo só vale a pena se ele tiver alguma utilidade, não concorda?
Dito isso, ele se endireitou. Não olhou mais para Leonardo, como se o simples fato de encará-lo fosse sujo. Virou as costas e voltou a se esconder na escuridão profunda, deixando apenas uma frase gélida ecoando no porão vazio.
— Dê o fora.
— Limpe a bagunça na Vila das Nuvens Cinzentas.
— Lembre-se do que eu disse. Esta é a sua última chance.
Até que o som dos passos daquele homem desapareceu por completo, Leonardo só então voltou a se endireitar lentamente. Ele continuou na mesma posição, com as mãos abaixadas, mas seus olhos, antes voltados para o chão, fervilhavam com uma humilhação palpável.
Ele cerrou os dentes com força. A cicatriz em seu rosto se retorceu pela raiva extrema, dando a ele um aspecto aterrorizante.
Jocelino... Aeliana...
À luz fraca do sol da manhã, ele só então percebeu que, na roupa escura e tática de Aeliana, na altura do braço e da coxa, havia manchas escuras evidentes.
As manchas estavam levemente endurecidas, claramente marcas de sangue já seco.
Por causa da cor escura da roupa, e como Aeliana havia se mantido anormalmente calma e firme o tempo todo, sem hesitar em nenhum movimento, no meio daquela confusão escura no barco, absolutamente ninguém tinha notado que ela estava ferida!
— Você se machucou?
A voz de Jocelino subiu um tom, carregada de um pânico que ele mesmo não havia percebido.
Ele agarrou o braço de Aeliana bruscamente.
Aeliana se assustou e, instintivamente, tentou puxar o braço de volta, mas Jocelino a segurava com tanta força que ela não conseguiu se soltar.
Ela olhou para o rosto dele, que de repente ficara péssimo, e para a preocupação fervilhando em seus olhos, e suspirou resignada, com um tom meio reconfortante.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Despertar Depois dos 1460 dias