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Despertar Depois dos 1460 dias romance Capítulo 1555

Aquela foi a primeira vez que ele demonstrou descontração durante o interrogatório, mas isso fez com que os dois inspetores ficassem instantaneamente em alerta.

— Sr. Lopes, Sr. Siqueira.

Ele começou a falar com voz serena:

— Vim para a Vila das Nuvens Cinzentas para fazer negócios, não para arrumar problemas. O motivo de o Cassino Noite de Cristal ter conseguido se reerguer é muito simples.

— Investi dinheiro de verdade na troca dos equipamentos, contratei uma equipe profissional com salários altos, combati a corrupção interna com rigor e, ao mesmo tempo... conquistei a confiança dos clientes.

Ele fez uma pausa e passou os olhos pelos dois.

— Qual é o maior medo de um apostador quando entra num cassino?

— É ter medo de que a casa esteja trapaceando, ou de ganhar e não conseguir sair com o dinheiro.

— A primeira coisa que fiz foi assumir um compromisso público.

— No Cassino Noite de Cristal, todos os jogos são justos e transparentes, e todo prêmio é pago na hora. Para isso, inclusive, convidei um tabelião para acompanhar tudo antes da inauguração.

— Tudo isso saiu na imprensa. Os senhores podem conferir.

O que Jocelino Barreto dizia era verdade.

Essas realmente tinham sido as medidas adotadas depois que Narciso Porto assumiu o controle, e sem dúvida esse era um dos motivos da melhora nos negócios.

Embora não fosse o único.

O Sr. Lopes e o Sr. Siqueira trocaram um olhar.

Foi nesse momento que a porta se abriu de novo.

Quem entrou dessa vez foi um homem à paisana, mas com uma presença claramente diferente.

Ele devia ter pouco mais de cinquenta anos, cabelos grisalhos e expressão fria. Não trazia nenhum documento nas mãos. Apenas entrou em silêncio, sentou-se numa cadeira no canto e cravou em Jocelino um olhar de falcão.

A pressão no ambiente dobrou na mesma hora.

A postura do Sr. Lopes e do Sr. Siqueira ficou visivelmente mais cautelosa, e até um pouco... respeitosa.

— Sr. Porto.

O Sr. Siqueira limpou a garganta e voltou a falar, mas seu tom já tinha mudado.

Havia menos sondagem e mais pressão direta:

— Temos uma testemunha que afirma que o senhor tem ligação com um grupo de lavagem de dinheiro do País Z.

Eros podia confirmar isso, e as câmeras de segurança do armazém também. Quanto ao Azulejos & Sabores... ele nunca nem tinha ouvido falar.

— No dia quinze do mês passado, entre duas e cinco da tarde...

Jocelino começou a responder devagar, num ritmo constante:

— Eu estava no Armazém Porto Dourado, no cais oeste, inspecionando uma mercadoria. O local tem câmeras, meu segurança Eros esteve comigo o tempo todo, e Pedro, da transportadora, também estava presente. O Sr. Lopes pode verificar.

Ele fez uma pausa e acrescentou:

— Quanto ao Azulejos & Sabores... eu nunca pisei naquele lugar.

— Se essa “testemunha” insiste nisso, sugiro que os senhores verifiquem a visão dela. Ou talvez a memória.

As palavras eram afiadas, mas foram ditas com educação.

O rosto do Sr. Lopes escureceu um pouco.

O homem de cabelos grisalhos no canto continuou em silêncio, apenas com o olhar ainda mais profundo.

O interrogatório chegou a um impasse.

Jocelino, porém, parecia não notar a tensão no ar. Recostou-se levemente na cadeira, deu algumas batidinhas com a ponta dos dedos sobre a mesa e, alternando o olhar entre o Sr. Lopes e o homem de cabelos grisalhos, esboçou um sorriso sem o menor calor.

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