Aquela foi a primeira vez que ele demonstrou descontração durante o interrogatório, mas isso fez com que os dois inspetores ficassem instantaneamente em alerta.
— Sr. Lopes, Sr. Siqueira.
Ele começou a falar com voz serena:
— Vim para a Vila das Nuvens Cinzentas para fazer negócios, não para arrumar problemas. O motivo de o Cassino Noite de Cristal ter conseguido se reerguer é muito simples.
— Investi dinheiro de verdade na troca dos equipamentos, contratei uma equipe profissional com salários altos, combati a corrupção interna com rigor e, ao mesmo tempo... conquistei a confiança dos clientes.
Ele fez uma pausa e passou os olhos pelos dois.
— Qual é o maior medo de um apostador quando entra num cassino?
— É ter medo de que a casa esteja trapaceando, ou de ganhar e não conseguir sair com o dinheiro.
— A primeira coisa que fiz foi assumir um compromisso público.
— No Cassino Noite de Cristal, todos os jogos são justos e transparentes, e todo prêmio é pago na hora. Para isso, inclusive, convidei um tabelião para acompanhar tudo antes da inauguração.
— Tudo isso saiu na imprensa. Os senhores podem conferir.
O que Jocelino Barreto dizia era verdade.
Essas realmente tinham sido as medidas adotadas depois que Narciso Porto assumiu o controle, e sem dúvida esse era um dos motivos da melhora nos negócios.
Embora não fosse o único.
O Sr. Lopes e o Sr. Siqueira trocaram um olhar.
Foi nesse momento que a porta se abriu de novo.
Quem entrou dessa vez foi um homem à paisana, mas com uma presença claramente diferente.
Ele devia ter pouco mais de cinquenta anos, cabelos grisalhos e expressão fria. Não trazia nenhum documento nas mãos. Apenas entrou em silêncio, sentou-se numa cadeira no canto e cravou em Jocelino um olhar de falcão.
A pressão no ambiente dobrou na mesma hora.
A postura do Sr. Lopes e do Sr. Siqueira ficou visivelmente mais cautelosa, e até um pouco... respeitosa.
— Sr. Porto.
O Sr. Siqueira limpou a garganta e voltou a falar, mas seu tom já tinha mudado.
Havia menos sondagem e mais pressão direta:
— Temos uma testemunha que afirma que o senhor tem ligação com um grupo de lavagem de dinheiro do País Z.
Eros podia confirmar isso, e as câmeras de segurança do armazém também. Quanto ao Azulejos & Sabores... ele nunca nem tinha ouvido falar.
— No dia quinze do mês passado, entre duas e cinco da tarde...
Jocelino começou a responder devagar, num ritmo constante:
— Eu estava no Armazém Porto Dourado, no cais oeste, inspecionando uma mercadoria. O local tem câmeras, meu segurança Eros esteve comigo o tempo todo, e Pedro, da transportadora, também estava presente. O Sr. Lopes pode verificar.
Ele fez uma pausa e acrescentou:
— Quanto ao Azulejos & Sabores... eu nunca pisei naquele lugar.
— Se essa “testemunha” insiste nisso, sugiro que os senhores verifiquem a visão dela. Ou talvez a memória.
As palavras eram afiadas, mas foram ditas com educação.
O rosto do Sr. Lopes escureceu um pouco.
O homem de cabelos grisalhos no canto continuou em silêncio, apenas com o olhar ainda mais profundo.
O interrogatório chegou a um impasse.
Jocelino, porém, parecia não notar a tensão no ar. Recostou-se levemente na cadeira, deu algumas batidinhas com a ponta dos dedos sobre a mesa e, alternando o olhar entre o Sr. Lopes e o homem de cabelos grisalhos, esboçou um sorriso sem o menor calor.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Despertar Depois dos 1460 dias