Na mente de Jocelino, os pensamentos já corriam rapidamente.
A acusação escolhida contra ele era, de fato, bastante adequada.
Sendo honesto, num lugar como a Vila das Nuvens Cinzentas, especialmente quando se chegava a certo nível, que contabilidade era realmente impecável?
Havia um ditado nas ruas.
O sangue de um homem de negócios é sempre um pouco escuro.
O dinheiro precisava circular, contatos precisavam ser comprados, aparências precisavam ser mantidas. Que contas, expostas ou escondidas, aguentariam uma investigação minuciosa?
Se fossem cavar fundo, qualquer um teria transações “difíceis de explicar”.
Por isso, jogar a acusação de lavagem de dinheiro nas costas de um empresário com patrimônio nunca parecia absurdo. Soava plausível, dava margem para investigação e ainda era fácil de manipular.
No fim, o objetivo era simples: levá-lo para a delegacia, mantê-lo preso por alguns dias e destruir sua reputação.
Mesmo que Jocelino já tivesse mascarado muito bem todo o fluxo de capital ligado à sua identidade na Vila das Nuvens Cinzentas, se alguém quisesse derrubá-lo com determinação...
Como, por exemplo, a família Saramago.
Bastaria empurrar discretamente por trás das cortinas, fornecer algumas “pistas” à polícia e espalhar alguns boatos para que ele fosse levado e interrogado por alguns dias. Não seria difícil.
O momento era oportuno demais, e Jocelino já tinha uma boa noção de quem estava por trás daquilo.
Na véspera, Fabíola tinha mandado gente segui-lo. E hoje aquilo acontecia.
Pelo visto, a atuação desastrosa dos capangas dela na noite anterior não tinha conseguido dissipar suas suspeitas.
Só restava saber se a jogada de hoje partia da própria Fabíola ou do pai dela.
Ou talvez...
Será que o tal Sr. Marques, prestes a voltar, queria testá-lo?
Pensando bem, não faltava gente querendo prejudicá-lo. Mesmo sem conseguir apontar um culpado específico, os objetivos de todos eram praticamente os mesmos.
— Senhor Porto, por favor.
Vendo que o homem estava irredutível e que qualquer outra palavra seria inútil, Jocelino deu de ombros de leve.
Seu rosto não deixava claro se ele estava realmente tranquilo ou apenas fingindo calma. Ainda assim, chegou a brincar com os policiais num tom quase zombeteiro.
— Inspetor, os senhores apareceram aqui fazendo esse espetáculo todo, e muita gente está me vendo. Um empresário vive da própria reputação. Depois de toda essa cena, nem quero imaginar o que vão falar de mim por trás.
Jocelino ajeitou o paletó e encarou o inspetor. Sua voz era leve, mas escondia um veneno sutil.
— Se, depois de horas de investigação, ficar provado que sou inocente... os senhores vão ter o trabalho de me trazer de volta pessoalmente e ainda fazer um esclarecimento público na frente dos meus clientes.
— Caso contrário, eu realmente não vou saber de quem cobrar pelos meus prejuízos morais e financeiros.
Depois de dizer isso, Jocelino não falou mais nada. Apenas lançou um breve olhar para Eros e fez um leve sinal com a cabeça, avisando-o para não agir por impulso.
Em seguida, diante dos olhares de todos, saiu do escritório com naturalidade sob escolta policial. Cruzou o salão, saiu pelas portas do Cassino Noite de Cristal, curvou-se e entrou na viatura parada do lado de fora.

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