Denise fez um bico.
— Todo santo dia a mesma rotina: trocar curativo, ouvir bronca de paciente... Comparar com a vida dos outros dá até raiva.
— Mas...
Ela mudou de assunto, num tom misto de inveja e curiosidade.
— Ela até que é bonita, delicada, tem presença... Só que esse jeito de se vestir não é básico demais?
— Esse terno, esse cabelo... passa uma sensação tão séria e antiquada. Parece diretora de escola. Só de olhar eu já fico com culpa de não ter feito a lição de casa.
— Ah, você não entende nada.
A Sra. Sousa respondeu com ar de experiência, dando um tapinha de leve no braço de Denise.
— Ela trabalha com pesquisa pesada e ainda por cima em neurocirurgia. Fica o dia inteiro lidando com as partes mais delicadas e complexas do cérebro. Você acha que ela ia andar por aí rindo e brincando igual à gente?
— Isso se chama rigor.
— Entendeu o que é rigor?
— Se ela aparecesse toda enfeitada, perfumada a ponto de dar para sentir do outro lado da rua, aí sim seria estranho. Que paciente ou familiar ia se sentir seguro deixando o cérebro de alguém nas mãos dela?
Ela fez uma pausa, mudou o tom e abaixou ainda mais a voz, olhando ao redor com cautela.
— Mas, falando sério, o jeito como o Sr. Almeida a tratou hoje foi um pouco exagerado, não acha?
— Foi buscar pessoalmente, veio acompanhando, conversou o caminho todo sem parar de sorrir. Eu trabalho aqui há quase dez anos. Já vi muito especialista e professor passar por este hospital. Consigo contar nos dedos de uma mão quem recebeu esse tipo de tratamento VIP dele.
— Pelo visto, essa dra. Porto não é pouca coisa... sabe-se lá o que mais existe por trás disso.
— O que mais? — Os olhos de Denise se arregalaram.
Ele a conduziu pelo último corredor e parou diante de uma porta entreaberta, ao lado de outra com a placa “Sala de Seminários / Discussão (3)”.
— Dra. Porto, este é o escritório preparado para a senhora. É para uso temporário, então pode ser um pouco pequeno. Espero que não se importe.
O Sr. Almeida deu um passo para o lado, convidando Nadine a entrar.
O escritório não era grande, mas era claro e limpo. Havia uma mesa de trabalho, uma cadeira, uma estante e um computador. As instalações eram simples, porém completas.
A janela era voltada para o leste, o que significava que devia receber bastante luz pela manhã.
Sobre a mesa havia um vaso com uma jibóia de folhas grossas e verde intenso, trazendo um pouco de vida àquela sala de aparência metódica.
— Está ótimo aqui, Sr. Almeida. Obrigada por todo o cuidado.
Aeliana entrou na sala, passou os olhos pelo ambiente e por fim parou no vaso de jibóia, enquanto os cantos dos lábios se curvavam num sorriso sincero.

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