Raimundo quebrou o silêncio com um tom grave e sereno, sem demonstrar alteração.
No entanto, o olhar avaliador que antes dirigia a Aeliana havia se dissipado, sendo substituído por um profundo respeito.
— A vida do meu irmão foi salva por você. Eu, Raimundo, não vou me esquecer desse favor.
Aeliana assentiu levemente, ignorando o peso por trás daquelas palavras, e apenas desviou o olhar para além do biombo.
— Fui paga para isso. É apenas o meu trabalho.
Diante da demonstração de gratidão, Aeliana não esboçou nenhuma empolgação ou reação exagerada. Pelo contrário, manteve-se tão calma e imperturbável que sequer piscou, como se, em vez de ter arrancado um homem das garras da morte, tivesse apenas servido uma xícara de café.
— Agora, se me permite, posso examinar Cláudia?
Raimundo a encarou.
Ele tinha um olhar clínico para as pessoas. Depois de tantos anos navegando entre a luz e as sombras na Vila das Nuvens Cinzentas, que tipo de figura bizarra ou perigosa ele já não tinha cruzado?
Aqueles que vinham lhe pedir favores quase arrancavam o próprio coração para provar lealdade; os que o temiam mal tinham coragem de levantar a cabeça para encará-lo; e os que se achavam espertos o suficiente para negociar sempre traziam um brilho de cálculo e sondagem no olhar.
Mas aquela Dra. Porto não se encaixava em nenhuma dessas categorias.
Ela era calma demais.
Não era uma postura forçada, mas uma confiança inabalável em suas próprias habilidades, combinada a uma indiferença quase total ao mundo exterior.
Parecia que não fazia a menor diferença para ela se ele era o temido Sr. Barreiros da Vila das Nuvens Cinzentas ou se o companheiro dele quase havia morrido.
Ela estava ali apenas para fazer um serviço. Uma vez terminado, pegaria seu dinheiro e iria embora, sem gastar saliva com uma única palavra inútil.
Interessante, pensou ele. Algo se moveu no íntimo de Raimundo.
Hoje em dia, poucas pessoas com talento genuíno ousavam tratá-lo com tanta naturalidade. Ou eram loucos, ou tinham um apoio muito sólido por trás — algo tão forte que sequer precisavam dar importância a alguém como Raimundo.
Atrás do biombo, o cheiro de ervas medicinais se misturava a um odor pesado e estagnado no ar.
Ofélia estava deitada na cama, com o rosto cinzento e uma respiração tão fraca que era quase inaudível.
Aeliana sentou-se na beira da cama, esvaziou a mente por um segundo e esticou os dedos para sentir cuidadosamente o pulso ressecado da senhora.
Em sua primeira tentativa apressada, havia sido interrompida por Raimundo antes de começar qualquer intervenção, então desta vez pretendia avaliar a pulsação com toda a atenção.
Sob seus dedos, o ritmo interno era fraco e caótico, acelerando e desacelerando abruptamente, às vezes desaparecendo por completo. Era como se algo estivesse se chocando violentamente nas profundezas de seu corpo, devorando as últimas faíscas de sua força vital centímetro por centímetro.
Imediatamente, Aeliana percebeu que havia algo muito errado.
O quadro havia mudado drasticamente desde a última vez que o checara.
Quando fez a avaliação superficial antes, a condição de Ofélia era errática, mas essa desordem era uma fraqueza difusa e sem padrão, semelhante à exaustão rápida causada por uma infecção agressiva enfraquecendo as defesas do organismo.

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