Rodrigo olhou para Felipe, que parecia um demônio, com o olhar alucinado, rugindo repetidamente "eu não errei", "eu sou um gênio", "eles merecem morrer", e sentiu um calafrio subir da planta dos pés até o topo da cabeça.
Houve um tempo em que Felipe era o irmão de quem ele se orgulhava, a glória da família Oliveira, a estrela em ascensão da medicina.
Mas agora, ele havia se transformado em um estranho completo, perigoso e destrutivo. Ele não só destruiu Henrique, mas estava prestes a destruir a si mesmo, e possivelmente levaria mais inocentes com ele.
A cena da tentativa de agressão há pouco, somada a esse discurso sem nenhum remorso e cada vez mais extremo, foi a gota d'água que esmagou a última hesitação e compaixão no coração de Rodrigo.
Continuar deixando-o solto por aí? Hoje ele ousou avançar com uma lâmina contra um estranho; o que ele faria de pior amanhã?
Henrique já estava na UTI à beira da morte. Ele não podia permitir que Felipe cometesse pecados ainda maiores, nem suportaria as consequências irreversíveis que poderiam vir.
Os seguranças já haviam controlado Felipe, que ainda se debatia, e injetaram um sedativo nele. À medida que o remédio fazia efeito, os rugidos de Felipe se transformaram em balbucios ininteligíveis, até que sua cabeça tombou e ele desmaiou. Mas, mesmo inconsciente, sua testa continuava franzida, e seu rosto retorcido em inconformismo e ódio.
Rodrigo fechou os olhos, exausto, respirou fundo e, ao abri-los novamente, havia apenas uma calma quase anestesiada e resoluta em seu olhar.
Ele se virou para o responsável pelo hospital e os psiquiatras que chegaram ao local, e disse com a voz rouca, mas surpreendentemente clara:
— Senhores médicos, desculpem-me pelo transtorno causado hoje.
— A situação do Felipe... vocês viram. Ele apresenta tendências agressivas óbvias e constitui uma grave ameaça para si mesmo e para os outros. Como familiar... eu concordo e peço encarecidamente que o hospital, seguindo rigorosamente os regulamentos, proceda com... a internação compulsória para tratamento.
Ao pronunciar as palavras "internação compulsória", Rodrigo sentiu um inevitável amargor no coração.
— O estado do Dr. Oliveira exige internação compulsória. Os sintomas dele estão muito mais graves do que antes. Depois organizaremos uma nova junta médica para definir o tratamento mais adequado. Se ele cooperar, com certeza vai melhorar.
Rodrigo assentiu, sem olhar novamente para Felipe, que estava sendo fixado com faixas de contenção na maca móvel pelos enfermeiros. Ele sentia apenas um cansaço infinito, física e mentalmente, e só queria ir para casa.
Mas Rodrigo queria ir, e o herdeiro rico não queria deixar.
Vendo que a equipe médica apertava as faixas no Felipe inconsciente e o levava embora, o herdeiro, que há pouco estava se borrando de medo, levantou-se de trás do segurança, ainda trêmulo.
Ao pensar que tinha acabado de fugir como um covarde sendo perseguido por Felipe, o susto e a humilhação se transformaram rapidamente em vergonha e fúria. O herdeiro soltou a mão da acompanhante, que ainda soluçava, e correu direto para Rodrigo, que estava com o semblante sombrio, apontando o dedo em sua cara e xingando.

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