Mas reencontrar Fernanda, como num passe de mágica, havia anestesiado todas aquelas feridas.
Ela parecia ainda mais calada do que antes.-
Leonardo se lembrava bem do início do namoro. Sempre achou que a garota era quieta demais. Eram aqueles olhos amendoados, límpidos e brilhantes, que falavam por ela.
Quando estava séria, era fria e inalcançável. Mas quando sorria, irradiava uma doçura infinita.
E era só para ele que Fernanda sorria de verdade, com os olhos se curvando como meias-luas. Só perto dele ela era animada, barulhenta, manhosa e mimada.
Ela fazia as birras mais teimosas, que lhe davam dores de cabeça inesquecíveis.
As bitucas no cinzeiro da lixeira foram se acumulando.
Leonardo continuava estático, o olhar pregado no ponto onde o táxi havia dobrado a esquina.
Pouco tempo depois, as portas do restaurante se abriram. Serena saiu de mãos dadas com Antôn.
As memórias despencaram de volta para a realidade.
— Leo, por que ficou aqui fora todo esse tempo? Você mal comeu. — A voz de Serena era suave e melodiosa.
Leonardo esmagou o cigarro.
— Contanto que você e o Antôn tenham gostado da comida, é o que importa. Já estão satisfeitos? Vou levar vocês para casa.
Serena pareceu surpresa.
— Você não vem para casa? Passamos tão pouco tempo com o Antôn no exterior. Ele estava todo feliz sabendo que ia dormir com o papai e a mamãe hoje.
A mão de Leonardo coçou para buscar outro cigarro, mas, lembrando-se da criança ao lado, ele recuou.
— Eu combinei de encontrar uns amigos. Fico com vocês amanhã.
Serena apertou as alças da bolsa. Mantendo o tom doce, ela concordou.
Leonardo levou Serena e Antôn de volta à mansão da família Soares. Mas ele não desceu do carro.
Assim que os dois cruzaram os portões e entraram no pátio, Leonardo deu a partida e foi embora imediatamente.
Ele foi direto para a vila residencial do colégio da Universidade P.
No passado, Leonardo havia levado Fernanda até aquele endereço incontáveis vezes. Conhecia o caminho de olhos fechados.
Mas, ao retornar depois de tanto tempo, o carro foi perdendo velocidade involuntariamente.
Ele não sabia se a família Cruz ainda morava ali. Não sabia se Fernanda havia voltado para a casa dos pais depois de formada ou se morava de aluguel.
Ele nem sequer sabia por que diabos estava ali.
Pegou a garota certinha e a levou para andar em carros em alta velocidade, pular de bungee jump, fazer paraquedismo e escalada.
Ele a beijou à força. Levou um tapa que adormeceu a lateral do seu pescoço. Mas logo em seguida, foi puxado pelo colarinho.
Fernanda o abraçou com força e devolveu o beijo. Desajeitada, sem nenhuma experiência, mas tentando desesperadamente assumir o controle.
Era o primeiro beijo dos dois. Os dentes batiam, mal sabiam como respirar. Mas era ardente. Louco.
Quando se separaram e se olharam, incontrolavelmente voltaram a se devorar.
Eles não conseguiam parar. E não queriam parar.
Ele era viciado em Fernanda. Toda vez que a via, queria abraçá-la, beijá-la, queria fazê-la chorar.
Por isso, a abstinência foi um inferno na terra.
Durante o tempo que passou no exterior, houve dias em que ele precisava se destruir em esportes radicais até esgotar toda a energia vital, só para conseguir pregar os olhos.
Com as mãos apoiadas no volante, Leonardo soltou um sorriso amargo.
De repente, duas batidas bruscas no vidro o assustaram.
Arrancado violentamente de suas memórias, ele ergueu a cabeça e olhou para fora.

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