Fernanda Cruz sentiu um desconforto sutil com a forma como Sérgio Dourado havia enfatizado a palavra "casa".
Além disso, o sorriso no canto dos lábios dele era cheio de segundas intenções.
— O que você comprou? — Ela perguntou, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
Sérgio Dourado riu.
— Você não está já pensando em como me dar um presente de volta, está? É só uma lembrancinha, nada caro.
Ele complementou:
— Eu mesmo fiz.
Fernanda Cruz olhou para ele, surpresa.
— Você tem habilidades manuais?
Sérgio Dourado manteve um ar de mistério. Por mais que Fernanda Cruz insistisse, ele se recusava a dizer o que era o presente. Ela não teve escolha a não ser desistir de tentar descobrir.
Com toda aquela provocação, ela acabou ficando genuinamente ansiosa para saber o que era.
Quando chegaram ao prédio, a neve caía mais forte. Sérgio Dourado recebeu uma ligação da delegacia pedindo para que retornasse. Com o clima extremo, o trabalho deles sempre ficava mais agitado.
Fernanda Cruz não deixou que ele a acompanhasse até a porta e subiu sozinha. Já estava tarde. Depois de tomar banho, revisou seus estudos por um tempinho. Quando estava prestes a deitar, notou que a neve lá fora já caía intensamente.
O branco cobria o céu, varrido pelos uivos do vento norte.
O chão estava forrado por um tapete imaculado, escondendo toda a sujeira e a desordem entre o céu e a terra.
Fernanda Cruz sentou-se na janela sobre um tapete felpudo e admirou a neve em silêncio por um tempo antes de dormir.
Achou que a neve fosse parar durante a noite. Porém, de maneira rara, a tempestade na Cidade Capital continuou oscilando de intensidade. E até o dia oito, ainda estava nevando.

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