André
Eu não esperava estar ali ajudando a montar uma bandeja.
Talheres, xícaras, frutas cortadas com cuidado demais para alguém que nunca se achou do tipo doméstico. Laís se movia pela cozinha com familiaridade, abrindo gavetas como se aquela casa fosse dela há anos, não dias. Aquilo me incomodava mais do que eu gostaria de admitir.
Ou talvez fosse outra coisa que me incomodava.
“Cuidado com a xícara, está quente”, ela disse, sem olhar para mim.
“Eu sei lidar com café”, respondi, seco.
Ela ergueu uma sobrancelha, avaliando se valia a pena discutir. Decidiu que não.
"Sabe André, eu estava dando conta até você chegar. Não precisa fazer isso se não quiser." ela falou ainda concentrada em sua tarefa.
"Eu quero fazer isso. Não se preocupe. Eu estou bem."
"Não estou preocupada. Só não vou correr para o hospital com você se você se cortar." sorri de lado.
"Acha que eu seria tão..." parei de falar quando a faca pegou na ponta do meu dedo, e o puxei imediatamente. Ela só ergueu os olhos com um sorriso convencido.
"Se cortou, não foi?" Neguei, mas o dedo já estava na boca.
"Me deixa ver..." ela pediu, mas neguei novamente.
"Estou bem, não foi nada." ela então pegou a fala que eu estava usando.
"Deixa que eu cuido disso a partir de agora." bufei e me afastei. Ela terminou de arrumar tudo, nas duas bandejas.
"Eu levo uma," falei rápido, não querendo parecer tão incapaz.
"Tem certeza? Eu posso levar essa e buscar a outra."
"Nem pensar."
Subimos as escadas em silêncio. Quando percebi onde estávamos indo, meu estômago apertou.
O quarto do Cássio. Não gostei. Não disse nada.
Não era minha casa. Não era minha decisão. Ainda assim, ver minha irmã dormindo ali, naquele espaço que não era dela, mexeu comigo de um jeito que eu não estava pronto para nomear.
Laís bateu de leve na porta.
Antes que qualquer adulto respondesse, a porta se abriu de uma vez.
“Oi!”, Aelyn apareceu com um sorriso enorme. “Tio André! Você também veio ajudar?”
O impacto foi imediato.
O sorriso da Branca sumiu no mesmo instante. Não completamente, mas o suficiente para eu notar. O corpo dela ficou rígido, o olhar rápido demais na minha direção, como quem se prepara para um confronto que não quer ter.
Aquilo me doeu.
“Eu só vim ver como vocês estão”, falei, rápido, tentando não piorar. “E saber se precisam de alguma coisa.”
Cássio respondeu antes dela.
“Estamos bem”, disse, num tom neutro, controlado. “Em repouso. A doutora Aelyn está cuidando de tudo.”
“É verdade”, ela confirmou, inflando o peito. “Eles são meus pacientes.”
Laís entrou primeiro, colocando a bandeja sobre a cama com cuidado e fiz o mesmo que ela, colocando a segunda.
"Estão bem mesmo, se precisarem de..."
"Não se preocupe. Temos tudo o que precisamos." Branca falou sem me olhar diretamente.
"Fico feliz. Ainda assim me preocupo com vocês."
"Eu não vou deixar nada acontecer com eles, tio André. Que médica eu seria?" todos riram.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz