Cássio Ravelli
Ela estava sentada no sofá da minha sala, cabeça baixa, dedos apertando a alça da bolsa como se aquilo pudesse mantê-la inteira. Não percebeu minha chegada. Ou fingiu que não percebeu.
Parei na porta. Observei por alguns segundos.
O jeito como ela respirava fundo... Como tentava recuperar uma dignidade que eu mesmo tinha arrancado...
Era quase irritante.
Pigarreei.
Branca levantou o rosto de uma vez, como se despertasse de um pesadelo. E quando me viu, a expressão dela virou outro.
"Ah, só pode ser brincadeira."
"É bom te ver novamente, senhora Branca."
"Então o senhor armou pra mim? Não bastava ter feito aquela cena no hospital, agora também me arrastou para sua casa. O que quer?"
"Abaixe o tom, senhora, você está na minha casa e Aelyn está descansado, não quero que ela se exalte."
"Ela nem deveria estar aqui. Ainda mais do que passou hoje. Ela deveria estar no hospital recebendo os cuidados necessários."
"E ela está. Aqui na minha casa temos um quarto hospitalar preparado para ela. Prefiro que ela tenha sua recuperação aqui mesmo, longe de infecções e uma quantidade imensurável de gente que eu não controlo."
"Ah claro, como eu poderia esquecer que o senhor é o rei do mundo. Mas eu ainda não entendi o que estou fazendo aqui. Já desgraçou a minha vida o suficiente, quer me humilhar um pouco mais?" sorri de lado, sentindo meu desejo por realmente destruí-la aumentar.
"Eu tenho uma proposta para você."
"Eu não quero nada do senhor. Maldito dia que te encontrei no bar." ela avançou para a porta e me afastei. Assim que ela puxou a maçaneta, descobriu que estava trancada e seus olhos se voltaram acusatórios para mim. "Abra essa porta." ela falou entre os dentes.
"Não até me ouvir."
"Eu não tenho nada pra ouvir do senhor. Eu quero que abra essa porta agora, ou vou começar a gritar. Pense na sua filha." estreitei os olhos.
"Essa sala é a prova de som. Pode gritar o quanto quiser."
"Mas o senhor disse... disse que..." sorri de lado.
"Eu só queria ter uma conversa civilizada com a senhora, então podemos nos sentar?" ela bufou, irada e voltou para o sofá se sentando, ainda mais dura do que antes.
"Fala de uma vez e me deixe ir." ela não me encarou.
"Quero que seja a babá da minha filha. Não sei que feitiço você usou ao cantar para ela, mas ela está apegada a você e preciso que por um tempo, seja esse suporte emocional." ela me olhou com raiva.
"Suporte emocional? Sério? Sua filha precisa do pai, não de uma estranha."
"Eu sei, mas por incrível que pareça, ela quer a estranha."
"Eu não posso aceitar."
"E por que não? Me dê um bom motivo e deixo você ir embora."
"Porque ela sofreria! Nós dois não funcionamos juntos."
"Discordo." Inclinei o corpo, apoiando os cotovelos nos joelhos. "No bar fomos ótimos juntos." ela ficou vermelha na hora e se levantou.
"Não me lembre daquele dia, eu nem sei por que fiz aquilo. Só me deixe ir embora. Eu não quero trabalhar para o senhor. Sinto muito pelo que sua filha está passando, mas não sou a pessoa certa para cuidar dela."


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