Cássio
Fiquei parado no quarto depois que ela saiu.
Não porque precisava. Mas porque meu corpo ainda não tinha entendido que ela tinha ido.
Observei a porta fechada por alguns segundos, passando a mão no rosto, soltando uma risada baixa e desacreditada.
"Fodido…"
Não era só desejo. Era pior.
Era o jeito como ela se encaixava. Como ocupava espaço sem pedir licença. Como parecia ter sido feita sob medida pra bagunçar tudo o que eu levei anos organizando. E eu não ia abrir mão disso. Bufei de novo, lembrando da cara apavorada dela falando da Glória.
Ah, Glória…
Cinco anos naquela casa. Desde antes da morte da minha ex-esposa. Sempre presente, sempre eficiente, sempre com aquele ar de quem sabe mais do que deveria.
Gostar de mim?
Revirei os olhos enquanto me vestia.
"Não faz o menor sentido. Além de tudo, ela é mais velha que eu. E muito." Dei uma risada, mas algo dentro de mim começou a se incomodar.
Comecei a repassar os pedidos de demissão. De como as babás pareciam gostar da Aelyn, mas do dia para noite, apareciam com caras apavoradas, e pediam para sair. Era como se...
"Será que a Branca tem razão sobre isso?"
Terminei de me trocar, peguei a carteira, o celular, as chaves e desci.
Encontrei Glória na cozinha, arrumando a bancada como se estivesse num palco.
"Glória", falei casualmente. "Avisa pra Branca e pra Aelyn que eu vou sair rapidinho. Vou buscar umas coisas que a pequena gosta. Não vou demorar."
Ela se virou rápido demais.
"Claro, senhor Ravelli. Pode deixar."
Fez uma pausa pequena, mas o suficiente para me fazer parar.
"Precisa me dizer algo?" questionei, e ela se aproximou.
"Mas… hoje não é o dia de folga da Branca, senhor?"
Levantei uma sobrancelha.
"É."
"Então…" ela ajeitou o pano na mão. "Eu que ficaria com a Aelyn hoje. A gente podia… fazer o que o senhor quisesse. Não entendi por que essa mulher ficou. Folga tem que ser feito longe daqui, ela não tem quem visitar não?"
Dei uma risada curta.
"Ela ficou porque eu pedi."
O sorriso dela morreu. Literalmente. Nunca vi uma decepção ficar tão evidente.
Os olhos arregalaram um pouco, o corpo ficou tenso, como se alguém tivesse puxado o freio de mão.
"Entendo", respondeu, seca demais. "Mas ela não me informou nada." olhei para ela com a sobrancelha erguida.
"E por que ela deveria, se ela responde apenas a mim?" estralei a língua, tentando entender o raciocínio dela.
"Eu... as babás sempre me informaram de tudo. Essa que é petulante demais. Vai ser uma má influência para a menina."
"Glória, eu a contratei. Eu sei as recomendações dela. Para de implicar com ela. Não tem por que. Entendido?" ela me olhou de lado e confirmou com a cabeça.
"Ótimo", finalizei. "Volto já."
Saí antes que ela dissesse qualquer outra coisa.
No caminho, deixei o pensamento correr solto. Entrei numa Loja de doces finos que eu sabia que a Aelyn adorava. Chocolates artesanais, marshmallows importados, pipoca gourmet. Peguei mais do que precisava.
Talvez porque eu também quisesse compensar.
Ao lado havia uma floricultura. Entrei quase sem pensar e peguei um urso enorme e absurdamente fofo para a Aelyn. Cheguei a considerar um buquê para a Branca, mas descartei a ideia na mesma hora, não teria como explicar aquilo sem levantar perguntas demais. Acabei escolhendo apenas uma rosa vermelha, simples e direta, exatamente como o que eu sentia naquele momento. Coloquei tudo no carro e, ao fechar a porta, percebi a satisfação quente se espalhando pelo peito. Não fazia sentido algum. Ainda assim, parecia certo.
Quando voltei, parei o carro em frente à casa e um dos seguranças se aproximou.
"Tudo tranquilo?" perguntei, assim que pedi para ele me ajudar com as sacolas.
"Sim, doutor."



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