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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 220

André

Chegamos às onze. E eu sei exatamente quando isso acontece, porque cada minuto dentro daquele carro pareceu mais longo do que deveria. A cidade surge diante de nós com uma normalidade irritante, como se o mundo não tivesse mudado completamente enquanto a gente atravessava a estrada. Mas mudou. Pra mim mudou tudo.

Quando o orfanato aparece à nossa esquerda, eu travo. O olhar gruda no portão, na fachada simples, no nome pintado que já começa a descascar com o tempo. Peço para Laís diminuir a velocidade apenas para tentar ver algo, qualquer coisa, mas nem sei o que estou procurando.

"Não podemos parar, André. Temos que ir na vara da infância primeiro. Não podemos criar um desconforto antes de saber se estamos certos ou não sobre o garoto."

A voz da Laís vem firme, baixa, como se ela soubesse exatamente o que estava acontecendo dentro de mim. Fecho minha mão com força, sentindo minhas unhas se cravarem na minha palma. Mas concordo. Porque eu sei que ela está certa. E mesmo assim, cada metro que me afasta dali parece errado.

Eu não estou tranquilo. Nem perto disso. Não importa o quanto eu tente respirar fundo, organizar os pensamentos, manter o controle, não funciona. Minha mente já está lá dentro. Já está vendo ele. Já está tentando encaixar um rosto que eu nunca vi na vida, dentro do meu subconsciente.

"Eles não vão deixar a gente entrar assim. Precisamos seguir o que o protocolo manda e temos que pensar no menino também. Se ele não for seu filho, você pretende adotá-lo?"

Solto um ar pesado.

"Eu sei...é que eu só queria que fosse ele. Para que ele não tenha que passar por mais nada."

"Eu sei... mas vamos dar tempo ao tempo. Estamos fazendo tudo certo. Vamos resolver a papelada e entrar com o processo na Vara da Infância, assim acelera o processo." Concordo, soltando o ar, e ela volta a acelerar e me afasta do lugar onde eu acredito que meu filho está.

A Vara da Infância é mais fria do que eu esperava. Organizada, silenciosa e lenta. Laís assume o controle no instante em que a gente entra. A postura muda, o olhar fica mais técnico, mais direto, e eu vejo ali não só a mulher que eu amo, mas a advogada que resolve coisas. Ela se apresenta, entrega o boletim, a foto, os documentos. Explica com clareza, sem se perder, sem hesitar. Cada palavra encaixada no lugar certo. Cada detalhe apresentado como prova.

"Sou a doutora Laís, advogada. Estou representando o senhor André Bayron sobre uma alienação parental. Encaminhei um e-mail mais cedo com toda a documentação. Precisamos disso com máxima urgência."

A mulher do outro lado do balcão franze levemente o cenho e se vira pro computador.

"Ainda não visualizei. Seguimos a ordem de chegada dos e-mails, me dê alguns minutos."

Burocracia. Claro. Mas ela começa a procurar. E eu sinto o peso daquele segundo. Laís volta a ficar perto de mim, seus dedos se entrelaçando aos meus, sendo meu porto seguro. Se não fosse ela ali, nem sei como eu estaria nesse momento.

220. Está acontecendo 1

220. Está acontecendo 2

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