Laís
O caminho até o quarto parece mais longo do que realmente é, talvez porque eu esteja prestando atenção em cada passo que ele dá. André tenta disfarçar, mas o peso do corpo ainda puxa de um lado mais do que deveria, e cada movimento carrega um esforço que ele não admite.
"Devagar", digo, mantendo o braço firme ao redor dele.
"Eu estou devagar", ele rebate, com aquele tom que tenta parecer irritado, mas que já conheço bem demais para saber que é só orgulho ferido.
Eu quase sorrio.
A gente chega ao quarto hospital, e eu ajudo ele a sentar na cama com cuidado, observando cada reação, cada contração leve no rosto que ele tenta esconder.
"Deveria estar no hospital ainda..." reclamo. "E ainda bebeu duas taças de champagne. E se isso cortar a medicação, André?" ele ri.
"Não vai. E não, se eu estivesse no hospital, não ia estar comemorando a chegada da nossa sobrinha. Então fiz a melhor escolha." bufo.
"Você é teimoso demais."
"Viu só? Sobrevivi", ele fala assim que se deita na cama, fazendo caretas para esconder a dor.
"Ainda não sabemos das possíveis complicações por esse excesso de esforço", respondo, ajeitando o travesseiro atrás das costas dele. "Você ainda está todo remendado."
Ele ri baixo, apoiando a cabeça por um segundo, como se finalmente permitisse ao próprio corpo descansar.
"Não se preocupa, tá? Eu to bem." Olho para aqueles olhos verdes que eu tanto amo e tento me convencer disso.
Antes que eu responda, a porta de vidro do quarto se abre sem aviso. Estávamos tão imersos que não percebemos a mãe de André se aproximar.
"Está confortável?"
"Estou", ele responde, simples.
Ela observa mais um instante, como se quisesse dizer alguma coisa, mas não diz. Só faz um aceno breve e sai, deixando o silêncio no lugar dela.
Eu acompanho a saída com o olhar por um segundo, depois volto para ele.
"Por que ela tem que ser assim?" ele pergunta, mais pra ele do que pra mim.
"Você tem a quem puxar. Cabeça dura igual", respondo, sincera.
"Eu não...", ele diz, com um meio sorriso.
"Claro que não..." sorrio, mas vejo a dor no fundo dos olhos dele. Ele espera a aceitação da mãe, mas ao mesmo tempo, espera ser forte para ela.
Sento-me na cama auxiliar, mais baixa, de frente para ele, apoiando as mãos no colchão enquanto observo o rosto dele com mais calma agora.
Se alguém me dissesse, meses atrás, que a gente estaria assim…
"Se me falassem há alguns meses que tudo isso ia acontecer, eu não acreditaria."
Ele solta um riso leve, balançando a cabeça.
"Nem eu."
O silêncio que se segue não é estranho. É cheio.
Como se tudo que a gente viveu ainda estivesse ali, mas sem pesar como antes.
"Olha a Branca…", continuo, mais baixo. "Tudo que ela passou… tudo que tiraram dela…" Minha garganta aperta um pouco. "E agora parece que estão devolvendo. Não do jeito que ela imaginou… mas ainda assim… é dela."
Ele me observa em silêncio por um segundo antes de estender a mão.
Entrelaça os dedos nos meus.
"Do mesmo jeito que com a gente."
Eu seguro mais firme, sentindo o calor da mão dele como uma âncora.


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