Branca
O tempo parece parar no exato segundo em que Aelyn diz aquilo.
"A Serena chegou!"
Eu olho para o Cássio, e sei que ele está tão surpreso quanto eu. Não é só o nome. É a forma como ela falou. A certeza. A alegria. Como se aquilo já fosse real para ela há muito mais tempo do que para nós.
"Serena?" Repito, ainda tentando entender, me abaixando na frente dela. Ela me olha com aqueles olhos brilhando, completamente segura do que está dizendo.
"Sim, mamãe. Minha irmã se chama Serena."
Meu coração aperta de um jeito diferente agora.
Não é só emoção. É reconhecimento.
"O Pedro me disse."
"Meu amor…" minha voz sai mais baixa enquanto me ajoelho na frente dela, ficando na altura do seu rostinho. "Você… sonhou com ele de novo?"
Ela faz que sim, naturalmente, como se estivesse falando a coisa mais simples do mundo.
"Sonhei. Ele veio me contar." Sinto o ar faltar por um segundo. Sempre fico emocionada quando ela comenta sobre o meu filho. Mesmo não tendo conhecido ele, ela fala dele como se ele ainda fosse real. Como se ainda estivesse aqui.
Cássio se abaixa ao meu lado, mais próximo agora, como se também precisasse estar dentro daquele momento.
"E o que ele disse?" pergunta, com uma calma que eu sei que não é completamente real.
Aelyn sorri, daquele jeito leve, puro.
"Que ele escolheu a Serena pra gente." O mundo silencia.
Eu sinto meus olhos encherem antes mesmo de conseguir processar tudo aquilo. Não é dor. Não é saudade como antes. É outra coisa. Mais leve. Mais… certa.
Puxo Aelyn para um abraço apertado, escondendo o rosto no cabelinho dela por um segundo.
"Você não sabe o quanto isso me faz feliz, meu amor…" murmuro, a voz embargada. "Saber que você já ama tanto a sua irmãzinha… e que esse nome…"
Não termino, porque não preciso.
Cássio nos envolve logo em seguida, completando aquele abraço como se estivesse selando algo maior do que nós três.
"Serena é exatamente o que está faltando na nossa vida", ele diz, baixo, firme.
E, pela primeira vez em muito tempo… eu sinto que talvez tudo esteja se encaixando do jeito que deveria.
"Então esse vai ser o nome dela." Cássio fala sorrindo. "Serena. Nossa pequena menina."
"Eu sou a grande e ela a pequena." Nós três rimos e tudo parece perfeito.
Então a campainha toca.
O som corta o momento, mas não quebra completamente a sensação que ainda paira no ar. Eu respiro fundo, limpando discretamente o canto dos olhos enquanto me levanto.
"Está esperando alguém?", digo, levantando-me, e Cássio faz o mesmo.
"Não. Mas se os seguranças deixaram passar, é alguém conhecido."
Cássio segura a mão da Aelyn, e descemos juntos as escadas para descobrir quem é.
Quando abro a porta, encontro exatamente quem imaginei.
André está ali, apoiado, ainda com movimentos mais lentos, o rosto marcado pelo cansaço, mas com os olhos atentos. Laís está ao lado dele, firme como sempre. E… minha mãe.
Ela não me olha de imediato. O que, de alguma forma, já diz muita coisa.
"Você já teve alta?" pergunto, surpresa.
"Laís me expulsou do hospital", André resmunga, dando um meio sorriso.
"Mentira", ela rebate. "Ele que começou a dar trabalho, falando que não queria mais ficar lá, tive que assinar um termo de responsabilidade."
Cássio se aproxima, apoiando André com cuidado e ajudando-o a entrar.
"Vem, senta lá dentro. Ainda bem que a gente não desmontou o quarto hospital da Aelyn, você pode ficar lá até melhorar."
"Não é pra tanto", André responde, bufando. "Tá doendo, mas dá pra aguentar."



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