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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 20

Cássio Ravelli

Eu falei merda.

Não havia outro jeito de nomear aquilo.

A frase saiu da minha boca como veneno, sem cálculo, sem justiça, sem controle. E agora ecoava na minha cabeça como um erro que não podia ser desdito. Eu sempre soube usar palavras. Sempre soube como pressionar, intimidar, conduzir pessoas ao ponto que eu queria. Então por que com ela era diferente?

Talvez porque Branca não se curvasse. Talvez porque ela não me temesse.

Ou talvez porque ela não tivesse mais nada a perder além da própria dignidade.

Entrei no banheiro e liguei o chuveiro no máximo, deixando a água gelada cair sobre minhas costas, tentando apagar a sensação incômoda que se espalhava pelo peito. Ela estava certa. Em tudo.

Não falou da boca para fora. Não quis impor poder. Observou, estudou, se preocupou. Enquanto eu gritava, ela agia. Enquanto eu duvidava, ela cuidava. No final, foi minha filha quem pagou o preço do meu orgulho.

Fechei os olhos, respirei fundo e, num impulso, soquei a parede azulejada. Não forte o bastante para quebrar algo. Mas o suficiente para lembrar que eu ainda sentia.

Eu era rígido. Sempre fui. Mas não era um monstro. Não daquele tipo.

Saí do banho, me enxuguei sem pressa e peguei o celular antes que tivesse tempo de pensar melhor. Liguei para Bayron.

“Descobriu alguma coisa?”, perguntei assim que ele atendeu.

“Não”, respondeu. “Nada. Nenhum processo de guarda envolvendo Pedro Oliveira. Nenhuma ação ligada à Branca Oliveira. Nada mesmo. Na verdade, os dois nem existem aqui para mim.”

Franzi a testa.

“Tem certeza?”

“Absoluta. Se quiser, me manda os documentos dela que eu puxo mais fundo. Mas só com esses nomes… é muito vago.”

Passei a mão pelos cabelos, inquieto.

“É estranho”, murmurei. “Ela disse que perdeu a guarda do filho.”

“Você tem certeza disso?”, Bayron perguntou. "Ou você deduziu que ela falou isso. Porque de verdade, Ravelli, não sei por que está tão interessado nessa mulher. Se ela tem antecedentes, é só demitir."

Abri a boca para responder… e parei.

Não. Ela não disse. Eu deduzi.

O silêncio do outro lado da linha foi pesado demais.

"Não é tão simples assim." falei com a cabeça girando, tentando achar cada detalhe da nossa conversa.

“Ou ela não é daqui”, Bayron sugeriu. “Ou a perda dela é de outro tipo.”

Meu estômago afundou.

Desliguei sem dizer mais nada, terminei de me vestir às pressas e desci as escadas quase correndo, ignorando qualquer postura de juiz, qualquer controle ensaiado.

Quando cheguei ao quarto, a cena me atingiu sem aviso.

Branca estava sentada, segurando a colher com cuidado, e dando a comida na boca da minha filha. Ela falava baixo, com paciência, limpava o canto dos lábios da menina com o guardanapo, sorria de um jeito que não era profissional.

Era… íntimo. Era próximo.

20. A perda dela 1

20. A perda dela 2

20. A perda dela 3

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