Quanto mais ela falava, mais injustiçada se sentia; a injustiça tomava conta de si, deixando-a à beira de um colapso.
Os sentimentos de Sérgio se emaranhavam em uma complexidade sem fim, e ele sentia... certa angústia no coração.
Ele se lembrou de quando, após o acidente daquele ano, foi confrontado com o dever de assumir a responsabilidade sobre Natália. Isabel Horta, na ocasião, afirmara que, considerando o que ocorrera, o matrimônio seria imperativo.
Foi Melissa quem foi até ele para lhe dizer que não precisava se martirizar, pois não queria vê-lo se tornar um canalha sem compromisso.
E assim, Melissa deu as costas para o passado e se casou com Fábio Fontes.
— Não chore — falou Sérgio por fim, mas a sua voz emergiu inexplicavelmente impregnada de uma aspereza melancólica.
Só então percebeu de repente... as pessoas ficam roucas quando estão angustiadas?
Contudo, não era o momento para divagações. Melissa soluçava sem conseguir se conter, proferindo pedidos de desculpa repetidos:
— Me desculpa, me desculpa... me desculpa.
Sérgio suspirou profundamente:
— Está bem, está bem. Não chore, nem peça desculpas. A culpa não é sua. É... minha culpa.
Era a dívida dele.
Era ele... que precisava pagá-la.
— Não, não, não, é minha culpa — contestou Melissa, que, quiçá envolta pela tempestade de emoções, pousou a fronte nos ombros de Sérgio, banhada em lágrimas.
Sérgio paralisou, no entanto, foi incapaz de repeli-la.
— Chega, você não pode chorar mais. — recomendou Sérgio: — Cuidado com o bebê.
Foi essa advertência, quem sabe, que fez com que Melissa cessasse repentinamente o seu pranto.
— Já é tarde — declarou Sérgio, segurando-a pelos braços para afastá-la: — Você deve descansar bem, pensando no bebê acima de tudo.
Melissa, submissa, apesar das lágrimas teimosas, acenou:
— Tá bom.
Sérgio propôs:
— Eu levo você de volta.
Dito isso, ele se levantou.
Melissa, limpando os olhos orvalhados, seguiu o gesto.
Na soleira do quarto, Melissa ainda tinha os olhos vermelhos. Ela olhou para Sérgio e, com cautela e um tom brando, suplicou:
— Sérgio, você... poderia ficar comigo?
O cenho de Sérgio cerrou-se de imediato, em notória estranheza diante daquela proposta.
— Sinto medo e não consigo dormir — a voz de Melissa emudeceu ainda mais: — Será que você poderia apenas conversar comigo, ou até contar uma história para eu dormir?

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