Com o cenho intensamente franzido, Sérgio pegou seu maço, tirou um cigarro, levou-o aos lábios e permaneceu em silêncio.
Ele não disse nada, nem desligou. Dona Maria, assustada, apenas segurou o celular, sem coragem para encerrar a chamada ou dizer qualquer palavra.
Da onde estava, a governanta observava Natália tomar a sopa quente em silêncio; em seu rosto se notava uma mistura de contentamento e uma discreta alegria. Mas era tudo silencioso demais.
Silencioso até demais.
A paz era tanta que parecia uma lagoa de águas estagnadas, onde a única luz parecia ser aquela tigela com a sobremesa.
E essa luz, tragicamente, não viera do próprio marido...
A cena deixava Dona Maria apreensiva.
Por que, de repente, sentia tanta pena da sua senhora?
Tão resignada... Sendo ela uma moça de família nobre, criada com todos os mimos, contentava-se agora com uma simples sopa de peras.
Dona Maria sentiu um ardor nos olhos.
Pensou consigo mesma: "Ainda bem que ela não ouviu nada do que o Sérgio disse."
Se ouvisse, seu coração se partiria de tristeza!
A garganta estava tão rouca que mal saía a voz; e quando um amigo a agracia com um caldo, o marido ainda surta e quer proibi-la de aceitar o alento...
Sérgio acendeu o cigarro, tragou algumas vezes e, abafando sua raiva, instruiu:
— Então mande a cozinha preparar imediatamente. Assim que estiver pronto, ela pode comer mais tarde, como lanche noturno. E continue fazendo nos dias seguintes. Não é mais conveniente fazer em casa? O Mário pode enviar uma vez, mas duvido que o fará todos os dias.
— Ah — respondeu Dona Maria. — Sim, sim. Vou mandar a cozinha começar a preparar agora mesmo. O senhor deseja mais alguma coisa?
Sérgio inspirou fundo, hesitou um instante e indagou:
— As pastilhas que o Ricardo entregou para a garganta... ela tomou?
Aquela pergunta a pegou de surpresa, mas não teve escolha a não ser admitir:
— Não... ela não tomou.
Sem perder o ritmo, Dona Maria apressou-se a criar uma desculpa:
— Talvez não tenha gostado do sabor...
— Não tomou? — Sérgio parecia incrédulo. Ele se dera ao trabalho de enviá-las e ela... sequer tocou nelas?

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