Ela mal teve tempo de se levantar. Cambaleou dois passos para o lado e caiu de joelhos no cimento frio, o estômago se revolvendo com violência. Vomitou ali mesmo, o corpo inteiro se contraindo, uma mão apoiada no chão, a outra ainda segurando o gravador com força demais, como se largá-lo fosse pior do que tudo.
Quando a náusea passou, ficou ajoelhada, respirando mal.
O gosto amargo na boca.
Os olhos ardendo.
O peito apertado demais para o ar que tentava entrar.
As lágrimas vieram sem solenidade, sem aviso bonito, sem dignidade. Desceram misturadas à poeira, ao suor frio, ao horror.
— Não... — a palavra saiu quebrada.
Ela balançou a cabeça.
Mas não era uma discordância.
Era uma implosão.
Porque o problema não era mais descobrir que Rafael mentiu.
O problema era compreender por que ele mentiu.
E a resposta estava ali.
Em pilhas de provas.
Em datas.
Em fotos.
Na voz da mãe dela dizendo que estava sendo intimidada pelo senhor Montenegro.
Rafael Montenegro.
O homem que a tocava como se a conhecesse inteira.
O homem que a observava como se nada dela lhe escapasse.
O homem que ela amava.
Valentina apertou os olhos, mas isso só piorou. As imagens continuaram vindo. Rafael a abraçando. Rafael a beijando. Rafael dizendo o nome dela naquele tom baixo que sempre a desmontava. Rafael sentado à mesa de café, cortando fruta, dizendo com uma calma quase cruel que não conhecera seus pais.
Mentira.
Ele tinha olhado para ela e mentido.
Mais do que isso.
Ele a beijara depois.
Ele dormira ao lado dela depois.
Ele continuara sendo seu marido enquanto carregava o sangue dos pais dela enterrado debaixo de camadas de silêncio.
O ar voltou em espasmos.
Valentina sentou-se no chão mesmo, sem se importar com a sujeira, com a náusea, com a poeira impregnando a roupa cara. As costas encostaram na parede fria ao lado do cofre, e por alguns segundos ela simplesmente ficou ali, olhando sem ver para os papéis espalhados à sua frente.
Tudo que era dela parecia ter sido contaminado.
O amor.
A dor.
A memória dos pais.
O casamento.
A própria pele.
Ela pensou em Rogério. Pensou em toda a sujeira em volta da ruína da família. Pensou no dinheiro. Nas manipulações. Nos silêncios. E, pela primeira vez, tudo pareceu pequeno perto do que agora se erguia acima de qualquer outra hipótese.
Rafael.
Sempre Rafael.
Ele tinha procurado os pais dela porque estava cercado. Porque precisava impedir um caso. Porque precisava silenciar quem podia destruí-lo.
E eles morreram.
A conclusão veio brutal, afiada, inevitável.
Talvez ele não tivesse encostado as mãos neles.
Talvez tivesse.
Naquele instante, já não fazia diferença.
Porque, de um jeito ou de outro, tudo apontava para ele.
Valentina levou a mão ao peito como se pudesse segurar o próprio coração no lugar.
Doía.
Doía de um jeito cru, quase físico, como se tivesse engolido vidro.
— Você me destruiu... — sussurrou.
A frase saiu tão baixa que quase não existiu.
Ela encostou a mão na parede, fechou os olhos e respirou até conseguir se manter de pé.
Quando olhou para o depósito, tudo parecia igual.
As caixas. A poeira. A luz ruim. O armário. O silêncio.
Mas ela não era mais a mesma mulher que entrara ali naquela manhã.
A filha que buscava provas contra Rogério tinha desaparecido em algum ponto entre o cofre e o áudio.
Quem saía dali agora era outra.
Uma mulher com a verdade deformada nas mãos.
Uma mulher traída.
Uma mulher apaixonada pelo homem que, ao que tudo indicava, destruíra sua família antes de entrar na sua cama.
Valentina apagou a luz. Fechou o box. Girou a chave com mãos geladas.
Deu dois passos para trás.
E dessa vez não olhou para a porta como quem procura respostas.
Olhou como quem acabara de enterrar alguma parte de si ali dentro.
O caminho até o carro foi um borrão.
O trajeto de volta, pior.
A cidade seguia viva do lado de fora, banal, indiferente, como se o mundo não devesse parar só porque uma verdade monstruosa tinha acabado de rasgar a vida de alguém ao meio. As pessoas andavam. Os carros buzinavam. Os semáforos abriam e fechavam. O céu permanecia no lugar.
Valentina queria gritar.
Mas ficou em silêncio.
Porque havia dores tão profundas que nem o grito alcançava.
Quando finalmente entrou em casa horas depois, trazendo na bolsa o peso morto das provas e no peito um vazio devastador, só uma frase continuava viva dentro dela, repetindo-se como uma sentença.
Ele mentiu olhando nos meus olhos.
E, pela primeira vez desde que se casara com Rafael Montenegro, Valentina soube, com a certeza horrível de quem já não podia voltar atrás, que amar um homem era uma coisa.
Descobrir que esse homem talvez tivesse mandado matar os seus pais...
era outra.
E muito pior.

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