A sala de reuniões do Grupo Montenegro estava quieta demais.
Rafael não tinha dormido.
Nem um minuto.
O corpo dele estava ali, mas a mente… presa em outra cena:
Valentina ardendo em febre.
Valentina na piscina afundando.
Valentina tremendo enquanto sussurrava “cinco milhões… eu não consigo…”
Valentina segurando sua camisa até apagar.
Cada vez que ele piscava, voltava o som da respiração dela falhando.
O investidor asiático encerrou a apresentação, todos começaram a recolher laptops, mas Rafael sequer ouviu o final.
Ele abriu o tablet.
Clicou no ícone da câmera do quarto de Valentina.
A imagem abriu.
O quarto estava escuro.
Quieto.
Imóvel.
E aquilo não era bom.
Ele ligou imediatamente.
Clara atendeu com a voz dura, ensaiada.
— Senhor?
— Como está a senhora Montenegro?
Uma pausa. Desnecessária.
Ridícula.
— Está no quarto, senhor. Descansando. Deixamos uma canja para ela… e um chá.
Rafael recostou na cadeira, a expressão fechada.
— Ela comeu?
Mais uma pausa. O que irritou ainda mais.
— Não, senhor. Ela… recusou o almoço. Disse que só queria dormir.
Rafael fechou os olhos por um segundo.
Estúpidos.
Inúteis.
Completamente incapazes de entender uma emergência.
Ele desligou na cara.
Pegou o telefone e ligou para o médico da família.
— Doutor, vá agora à minha casa.
— Algum acidente? — o médico perguntou, alerta.
— A senhora Montenegro está gripada, febril, sem comer desde ontem.
Preciso que a examine imediatamente.
— Vou para lá agora.
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Entre uma reunião e outra, Rafael aguardou a ligação com uma tensão que ninguém na sala ousava comentar.
Ela veio.
O médico respirou fundo antes de falar:
— Ela está exausta. Teve uma queda brusca de temperatura e agora oscila entre febre e calafrio. Nada grave, mas ela precisa descansar. Líquidos, alimentação leve, e remédios para baixar a febre. Dois dias assim e ela se recupera.
Rafael apoiou a mão na mesa, firme.
— Você deixou as instruções com a equipe?
— Deixei, senhor. E vou retornar mais tarde para revisar.
— Faça isso.
Ele desligou e voltou para a reunião como se estivesse carregando algo quente demais dentro do peito.
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Quando chegou à mansão, já havia anoitecido.
Vittoria estava na sala, inflada de drama, pronta para espetar veneno.
— Finalmente chegou! — ela disse, aproximando-se. — Isabella está no hospital, frágil, vulnerável… e aquela garota lá em cima FAZENDO CENA DE DOENTE!
Rafael continuou caminhando.
— Você ao menos passou no hospital? — ela repetiu. — Minha menina sofreu um trauma real! Enquanto sua esposa… — ela cuspiu a palavra — …recusa até comida!
Ele subiu um degrau.
Vittoria foi atrás.
— Você precisa impor limites! Essa situação é inadmissível! A festa virou uma vergonha nacional, Rafael! Aquela garota destrói tudo onde encosta!
Ele parou no topo da escada e virou apenas metade do rosto.
— Se eu tivesse tempo para dramas — disse, gelado — não teríamos expandido para a Europa.
Vittoria calou na hora.
Rafael não subiu até o quarto dela.
Não naquela noite.
Vittoria estava acordada no andar de baixo — e a última coisa que ele queria era dar munição.
Então ele atravessou o corredor até seu próprio quarto.
Fechou a porta com um clique seco.
Tirou o terno, jogou a gravata sobre a poltrona e entrou direto no banheiro.
A água quente do chuveiro desceu pelos ombros, mas não relaxou nada — era como tentar apagar incêndio com fósforos.
Quando saiu, o cabelo ainda úmido, o pijama aberto no peito largo, ele parecia menos humano e mais uma tempestade contida.
Foi até a varanda.
Acendeu um cigarro.
A primeira tragada queimou na garganta — um gosto familiar de vício e silêncio.
Ele olhou o jardim lá embaixo, depois o céu pesado da noite, depois nada.
Só deixou a mente vagar.
Mas toda vez que tentava se esvaziar, voltava a mesma imagem:
— Deixe na mesa. — ele disse, sem olhar para ela.
Clara obedeceu, mas seu olhar grudou nele como uma mariposa na luz — cada músculo, cada sombra, cada gota de água na clavícula dele.
Quando ela pousou a bandeja, não resistiu em tentar espiar o que ele segurava nas mãos.
Mas ele já tinha abaixado o tablet.
— Não quero mais nada. — Rafael disse, frio, cortante. — Feche a porta quando sair.
Clara quase tropeçou nela mesma antes de sair.
A porta se fechou.
Rafael se levantou devagar.
Sentou à mesa.
Comeu alguns pedaços.
Em silêncio absoluto.
Rafael terminou o jantar como quem cumpre um dever militar.
Cada garfada era automática.
Cada tragada de ar parecia errada.
Ele empurrou a bandeja para longe e ficou sentado por um tempo que não soube medir — minutos, talvez horas. O relógio marcava, mas ele não via. A voz de Vittoria rodopiava na cabeça dele como veneno antigo. A lembrança da piscina voltava como golpe. A sensação das mãos dela na camisa ainda queimava na pele.
Por fim, levantou-se.
Caminhou até a cama.
Deitou.
Apagou a luz.
Fechou os olhos.
E nada aconteceu.
O sono não veio.
A mente não calou.
O corpo não relaxou.
Ele virou para um lado.
Depois para o outro.
Depois encarou o teto como se pudesse ameaçar a própria insônia.
Respirou fundo.
Nada mudou.
A imagem dela dormindo — febril, pequena, tremendo — continuava presa no fundo de seus olhos como se tivesse sido tatuada ali durante a madrugada.
Rafael passou a mão pelo rosto, irritado consigo mesmo, e soltou um longo, pesado suspiro — do tipo que um homem só solta quando percebe que está perdendo uma guerra que jurou não lutar.
Virou na cama pela décima vez.
Fechou os olhos à força.
Mas o último pensamento antes de, finalmente, cair num torpor leve e quebrado não foi sobre Isabella.
Foi sobre a mulher no quarto ao lado…
e o jeito como ela murmurou “não me deixa cair”.
E aquilo — aquilo sim — tirou o sono dele até o amanhecer.

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