Valentina inspirou fundo. A noite ainda prometia muito e ela já estava cansada.
— Só vim respirar um pouco — respondeu, sem agressividade.
Isabella deu dois passos.
Os saltos afundaram um pouco na grama, mas o olhar dela não vacilou.
— Respiração é importante — disse. — Especialmente pra quem vive… deslocada. O círculo social da família Montenegro não é qualquer uma que consegue acompanhar.
Valentina manteve a calma.
Silêncio às vezes vale mais que resposta.
— Vou ser sincera — Isabella continuou, cruzando os braços — eu te admirei… um pouco. Por aceitar um contrato tão... humilhante.
Valentina piscou lentamente.
Isabella sorriu mais.
— Ah, não olha assim. Todo mundo sabe.
Rafael sempre teve um destino traçado. Comigo. E você… bom… você foi só um obstáculo no meio do caminho. Uma substituta para sermos ricos.
Valentina ficou imóvel.
Não se defendeu.
Não discutiu.
Não caiu na armadilha.
E isso irritou profundamente Isabella.
— O contrato tem prazo, não é? — Isabella continuou, ajeitando o colar. — Doze meses. Depois disso, o nome Montenegro volta pro lugar certo.
Valentina respondeu com um sorriso tão discreto que pareceu proibido naquele jardim.
— Ótimo. — disse. — Você vai ficar com o que eu nunca quis.
O sorriso de Isabella morreu na hora.
A máscara caiu um pouco.
— Você acha que está acima de mim? — ela sibilou. — Você? A garota que entrou nessa família por contrato?
Valentina cruzou os braços atrás do corpo.
— Acho… — disse calmamente — que você está lutando por um lugar que já era seu.
Estranho ter que lutar comigo, não?
O veneno passou para a alma.
Isabella respirou pela boca, trincando os dentes.
— Rafael nunca te amou — ela disse, firme. — Nem por um segundo. Ele te tolera. Ele te usa. Ele te comprou.
Valentina inclinou a cabeça.
— E mesmo assim… estou aqui. E você está aí. Senhorita Moretti, uma dama da alta sociedade não pode perder o controle, acalme se e espere o contrato acabar, se não vai ficar falada no ciclo social. Afinal eu sou a esposa de papel passado e você... Bem, pode se tornar a amante e isso é.... Feio.
Isabella perdeu o controle.
A mão dela subiu antes mesmo que o cérebro acionasse o freio.
E—
ESTALO.
O tapa ecoou no jardim silencioso.
Valentina virou o rosto com o impacto.
A pele queimando.
O corpo firme.
Ela voltou o olhar para Isabella.
Sem ódio.
Sem medo.
Sem lágrimas.
Nada.
Esse nada mexeu mais com Isabella do que qualquer reação.
— Sua vadia! Vou te ligar ensinar o seu lugar..
A italiana ergueu a mão de novo — quando, atrás delas…
Passos.
Pesados.
Direcionados.
Reconhecíveis.
Isabella empalideceu.
Rafael Montenegro.
Terno impecável.
Gravata afrouxada.
Aquela aura de tempestade contida que anunciava destruição antes mesmo de falar.
— Dizer o quê?
Ele deu um passo à frente.
Ela não recuou.
A noite ficou quente, intensa, quase elétrica ao redor deles.
— Ela não tinha o direito de encostar em você — ele disse, lento, calculado, perigoso.
Valentina sorriu — pequeno, irônico, triste.
— Aqui dentro… ninguém precisa de direito pra nada.
O maxilar dele se contraiu.
— O que você fez pra ela te bater? — perguntou. A voz saiu baixa, dura, centrada.
Valentina ergueu o queixo.
— Se eu te disser que não fiz nada.. Você vai acreditar em mim ?
Rafael deu um passo na direção dela.
— Ah! Além de existir e me casar com você.
— Isabella não tinha o direito de tocar em você. — ele disse, o tom controlado demais para não esconder irritação.
Valentina soltou um sopro curto, quase um riso sem humor.
— Nesta casa, direitos só valem quando convêm.
Rafael respirou fundo.
Seu olhar voltou para a marca no rosto dela.
Devagar, como se tentasse se convencer antes de fazer qualquer movimento, ele estendeu a mão. Valentina por puro reflexo deu um passo para trás
A mão dele ficou suspensa por um instante.
Nem longo, nem dramático — apenas o suficiente para o gesto perder sentido.
Ele fechou lentamente os dedos, baixando o braço.
— Valentina… — ele começou, mas ela cortou:
— Com licença, senhor Montenegro. — disse, polida, impecável. — Já tomei demais do seu tempo.
Ela passou ao lado dele sem olhar para trás.
Entrou na casa como se nada tivesse acontecido.
Rafael permaneceu no mesmo lugar, os ombros tensos, o olhar preso no corredor por onde ela havia desaparecido.
Por um segundo, só um segundo, o controle dele falhou.

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