O shopping da família Montenegro ficava no centro da cidade, um espaço de luxo voltado às famílias mais ricas do país.
Lojas exclusivas, atendimento refinado e uma estrutura pensada para oferecer privacidade e conforto em cada detalhe.
Valentina percebeu isso no instante em que atravessou a entrada reservada, acompanhada por dois seguranças discretos e por Arthur, que caminhava meio passo atrás, como se fosse uma sombra educada. Nada de rádio gritando. Nada de movimentação espalhafatosa. Só o fluxo controlado, o ar condicionado perfeitamente calibrado e um brilho de vitrines que parecia ensaiado.
Bianca olhou em volta uma única vez, bem rápido, e ergueu levemente uma sobrancelha.
— Você reparou… — ela começou, num tom quase casual, como quem comenta o clima.
Valentina já sabia o que vinha.
— Que está “tranquilo demais”? — completou, sem nem precisar olhar para a amiga.
Bianca soltou um sorriso pequeno, de canto.
— Eu ia dizer “estranhamente vazio”, mas “tranquilo demais” soa mais… Bilionário.
Valentina respirou pelo nariz, tentando decidir se ria ou se ficava irritada. Acabou ficando nos dois. O constrangimento bateu como um calor repentino na nuca, ela queria ir até o JK Iguatemi, sempre foi lá, mas agora.
Algumas lojas estavam abertas… mas com pouquíssimas pessoas. E as poucas que estavam ali pareciam… cuidadosamente espalhadas. Como figurantes de uma cena de luxo.
— Não sei se fico preocupada ou se caio na risada? — Bianca falou.
— Porque?
— Seu marido, mandou esvaziar o shopping, se me preocupo com a obsessão por segurança que ele adquiriu depois de tudo, ou se caio na risada porque achei engraçado tudo isso. — Bianca falou como se estivesse analisando um novo prótons no laboratório.
Valentina manteve o queixo alto e a voz neutra, postura de mulher que não se surpreende com nada.
— Eu… estou igual a você.
Bianca olhou para ela e começou a rir incrédula, depois deu um passo adiante, os saltos batendo baixo no piso polido, e inclinou o rosto na direção dela.
— Você e ele são engraçados, ele controle.... — Você incrédula... Ai Ai, o poder da riqueza sem fim.
Valentina lançou um olhar de advertência.
— Bianca.
— Tá bom, tá bom. — Bianca ergueu as mãos num gesto de rendição. — Vou parar com isso. Prometo.
Elas passaram pela primeira vitrine — joias. Tudo impecável, luz calculada, segurança demais para um lugar que deveria ser “só compras”. A atendente, ao ver Valentina, endireitou a postura como se tivesse acabado de receber ordem divina.
— Senhora Montenegro. Bem-vinda. — a mulher disse, com um sorriso treinado, bonito e totalmente incapaz de ser falso naquele ambiente.
Valentina sentiu a palavra “Montenegro” se encaixar nela como um vestido caro: servia, mas ainda arranhava em alguns pontos invisíveis.
— Obrigada. — respondeu, suave.
Bianca ficou um segundo em silêncio. Depois inclinou levemente o rosto para Valentina, bem baixo:
— Você ouviu? Ela falou “Senhora Montenegro” do jeito que as pessoas falam “Sua Majestade”, só que sem coroa.
Valentina apertou a bolsa com a mão, como se aquilo impedisse o próprio rosto de corar.
— Para. — sussurrou.
Bianca sorriu, satisfeita, mas não insistiu. Ela sabia brincar sem empurrar. Sabia onde era a ferida e onde era só o ego.
A atendente apresentou uma bandeja de peças com brilho contido.
— Recebemos uma coleção nova. Se a senhora desejar, podemos apresentar com exclusividade…
Bianca, por sua vez, pegou uma peça e analisou com olhos de quem cresceu em ambientes assim, mas sem reverência.
— Bonita. — ela disse, devolvendo a joia à bandeja. — mas quero saber onde vamos usar isso, se mal podemos sair de casa.
A atendente sorriu, sem saber se aquilo era elogio ou crítica.
Valentina segurou o impulso de rir.
— Bianca… — ela murmurou.
— Eu tô sendo honesta. Isso é virtude. — Bianca respondeu, serena, e deu um passo para o lado. — Vamos pra roupa. Roupa com certeza não vamos errar.
Valentina a seguiu, aliviada.
O corredor seguinte era uma sequência de vitrines que pareciam editoriais: tecidos impecáveis, tons neutros, cortes perfeitos. Uma loja de alta costura abriu a porta como se estivesse esperando por elas desde a madrugada.
— Senhora, seu provador está pronto. — disse uma gerente, com a voz suave de quem sabe sorrir sem demonstrar ansiedade… mas ainda assim demonstrava.
Valentina parou, encarando Bianca por meio segundo.
Bianca respondeu com os olhos: Sim. Isso é surreal. Segue o jogo.
Valentina entrou.
O provador era maior do que muitos apartamentos. Aromatizado. Iluminado com luz que favorecia o rosto e a alma. E tinha uma bandeja de chá e pequenos doces organizados como se Valentina fosse uma visitante diplomática.
Bianca se sentou no sofá e cruzou as pernas com calma.
— Eu não sei se eu tô no shopping ou num interrogatório de luxo. — ela disse, olhando em volta. — Só falta alguém entrar e perguntar: “A senhora prefere confessar agora ou depois da terceira troca de look?”
Valentina soltou um riso curto, inevitável.
A estilista começou a apresentar peças. Valentina provou uma, depois outra. Tudo caía nela com facilidade irritante, como se o mundo estivesse decidido a deixá-la impecável. Uma parte dela gostou — outra ficou com raiva por gostar.
Bianca observava em silêncio, mas com olhos atentos.
— Você tá bonita demais. — ela comentou, quando Valentina saiu com um vestido preto de corte limpo, elegante e mortal. — Se Rafael te visse agora tenho certeza que os olhos dele se agarrariam em você e não te soltaria, acho que não só os olhos. Se é que você me entende. Ela piscou de forma divertida, fazendo Valentina revirar os olhos e virar para o espelho e viu… uma versão dela que parecia pronta para dominar qualquer sala.
— Eu não quero parecer aquelas mulheres deslumbradas com o luxo. — Valentina disse, sem tirar os olhos do reflexo.
Bianca se levantou, aproximou-se devagar, e ajeitou a manga do vestido com delicadeza.
— Você nem em um milhão de anos se pareceria com elas, sabe porquê — Bianca falou baixo, de um jeito sério que não pesava, mas sustentava. — Porque você é Valentina, antes de ser Montenegro, você já era assim.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com o Magnata Frio por Um Acordo Bilionário