Do lado de fora, o mundo já estava pronto para devorar.
— Extra! Extra! — a voz atravessou o corredor como uma lâmina.
— Esposa do magnata Rafael Montenegro é flagrada traindo o marido!
Celulares se ergueram como armas.
Câmeras buscaram ângulos.
Microfones se esticaram em direção à porta fechada.
— Furo de reportagem! — alguém leu em voz alta, quase triunfante.
— Socialite entra em quarto de hotel acompanhada de segurança durante evento bilionário!
O corredor elegante do Rosewood se deformava em algo feio, ansioso, faminto.
— Abram essa porta!
— Rafael, isso é verdade?
— O senhor vai se pronunciar?
Moreira avançou como uma muralha.
— Afastem-se imediatamente. — a voz dele cortou o barulho. — Ou todos serão processados por invasão, difamação e quebra de protocolo.
Dois seguranças se posicionaram ao lado dele, braços firmes, expressão dura.
Mas o estrago já estava feito.
A porta diante deles — madeira escura, número dourado refletindo a luz fria — começava a girar.
Rafael Montenegro não respirava.
Não por choque.
Mas porque, naquele segundo, duas verdades se chocavam dentro dele.
Uma gritava: isso é mentira.
A outra sussurrava, cruel: algo aconteceu com ela.
E essa segunda voz era a que mais doía.
Isabella estava logo atrás.
Os olhos brilhavam de expectativa mal disfarçada.
O corpo inclinado para frente, como quem espera o momento exato de assistir à queda.
A maçaneta girou por completo.
A porta abriu.
A luz acendeu.
E o silêncio que caiu não foi normal.
Foi errado.
Rafael deu um passo para dentro.
Depois outro.
E parou.
O quarto não parecia uma cena de traição.
Parecia uma cena controlada.
Na poltrona próxima à janela, Enzo estava sentado.
Relaxado.
Uma perna cruzada sobre a outra.
O cotovelo apoiado no braço da cadeira.
Um cigarro aceso entre os dedos, a fumaça subindo lenta, insolente.
Ele parecia… confortável.
No chão, ajoelhados, dois homens.
Uniforme rasgado, sangue escorrendo da sobrancelha, respiração pesada. Boca cortada, rosto inchado, mãos presas atrás das costas, o olhar quebrado.
Ambos dominados.
Ambos sangrando.
Em pé, alguns passos à frente dos homens ajoelhados, estava Dario.
O assessor de Enzo mantinha o paletó impecável apesar da cena. As mãos cruzadas à frente do corpo. A postura rígida de quem não precisava tocar em ninguém para impor respeito. O olhar atento, avaliando cada detalhe como se estivesse registrando provas silenciosas.
Perto da porta, um dos seguranças de Enzo permanecia imóvel, braços cruzados, expressão neutra — não para intimidar, mas para garantir que nada ali saísse do controle antes da hora.
E então Rafael viu.
A cama.
Valentina estava deitada.
Coberta até o peito.
Os cabelos espalhados pelo travesseiro.
O rosto sereno demais.
A pele pálida.
Inconsciente.
Dormindo.
Alheia ao inferno que se desenhava ao redor.
O coração de Rafael falhou uma batida inteira.
— Valentina… — a voz dele saiu baixa, quase engolida.
Bianca entrou atrás dele antes que qualquer um pudesse impedir.
O salto bateu seco no chão quando ela correu até a cama.
— Meu Deus… — sussurrou, ajoelhando-se ao lado dela.
Tocou o pulso, observou a respiração.
— Ela foi dopada.
Rafael não se moveu.
O mundo inteiro pareceu encolher para dentro do peito dele.
— Oi, primo. — a voz de Enzo soou tranquila demais. — Demorou. Mais uma vez.
Rafael virou o rosto lentamente.
O olhar que encontrou Enzo não era explosão.
Era contenção absoluta.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou.
Enzo deu uma tragada longa no cigarro, como se estivesse em um lounge qualquer — não no centro de um escândalo que poderia destruir um império.
Soltou a fumaça devagar.
— Salvando a donzela em perigo… — disse, com um meio sorriso torto. — Mais uma vez.
Rafael virou o rosto para ele.
O olhar não era de gratidão.


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