O salão ainda vibrava, Vittória segurava a taça de champanhe com firmeza excessiva. O sorriso social permanecia intacto, mas os olhos… os olhos não acompanhavam mais.
Ela observava.
Valentina cercada.
Valentina ouvida.
Valentina reconhecida.
Aquilo não era apenas uma noite bem-sucedida. Era uma ruptura simbólica. Um deslocamento de eixo.
— Impressionante, não acha? — disse uma voz feminina, suave demais para ser inocente.
Vittória não precisou virar o rosto para saber quem era.
Helena Montenegro aproximou-se com a tranquilidade de quem não precisava provar nada a ninguém. O vestido claro contrastava com o verde pesado de Vittória. Menos ostentação. Mais herança no sangue.
Uma verdadeira Montenegro.
Helena ergueu a taça e observou Valentina ao longe, como quem aprecia uma obra de arte recém-revelada.
— Sua nora está brilhando hoje. — comentou, com um meio sorriso. — Algo que você… nunca conseguiu, não é, minha cunhada?
O golpe foi cirúrgico.
Vittória sentiu primeiro no estômago. Depois no peito.
Mas não reagiu.
— Cuidado com o que diz, Helena. — respondeu, mantendo o tom doce. — Algumas pessoas confundem brilho com exposição.
Helena riu baixo, um riso contido, educado.
— Ah, Vittória… — disse, inclinando levemente a cabeça. — Se fosse só exposição, os investidores não estariam disputando a atenção dela.
Fez uma pausa breve. Calculada.
— Nem Rafael estaria permitindo isso.
Aquilo doeu mais.
Porque era verdade.
Helena deu um gole no champanhe, tranquila, enquanto Vittória apertava a taça um pouco mais.
— É curioso… — continuou Helena, como quem reflete em voz alta. — Você sempre quis ser o rosto do poder. Mas quem nasce Montenegro… — fez um gesto vago com a mão — …não precisa pedir palco.
E então se afastou.
Sem pressa.
Sem olhar para trás.
Como quem sabe que a semente já foi plantada.
Vittória permaneceu imóvel por alguns segundos.
Respirando.
Sorrindo.
Sangrando por dentro.
Do outro lado do salão, Isabella observava tudo com o mesmo sorriso congelado desde o início da noite.
Mas, ao contrário de Vittória, Isabella não tinha o treino emocional para esconder a fissura.
Os olhos dela estavam úmidos — não de emoção, mas de raiva.
Aquela noite era dela. Sempre fora.
Era ela quem deveria estar ali, ao lado de Rafael.
Era o nome dela que deveria ecoar nos cumprimentos, nos brindes, nos olhares avaliativos.
Mas não.
Valentina Diniz — agora Montenegro — ocupava o espaço como se sempre tivesse pertencido a ele.
Isabella virou a taça de uma vez, ignorando o gosto.
— Ridículo. — murmurou, mais para si do que para alguém.
— Ridículo é não saber jogar quando a mesa muda. — respondeu Helena, surgindo ao lado dela como uma sombra elegante.
Isabella se virou, surpresa.
— Eu não estou jogando. — disse, seca. — Eu fui roubada.
Helena sorriu. Não um sorriso de consolo. Um sorriso de entendimento perigoso.
— Ninguém rouba o que não foi oficialmente entregue, querida. — disse, com calma. — E você sabe disso melhor do que ninguém.
Isabella desviou o olhar, encarando Valentina novamente.
— Era para ser meu. — sussurrou. — Tudo isso. O nome. O poder. O dinheiro.
Helena observou Valentina com interesse genuíno.
— E, no entanto… — respondeu — ela conseguiu sem pedir.
Isabella fechou a mão com força.
— Eu odeio essa mulher.
Helena inclinou-se levemente, aproximando-se do ouvido dela, sem jamais perder o tom elegante.
— Ódio é uma emoção pouco refinada. — disse. — Mas pode ser… útil.
Isabella virou-se para ela, desconfiada.
— O que você quer dizer?
Helena bebeu mais um gole de champanhe, os olhos atentos ao salão.
— Nada. — respondeu, suave demais. — Apenas acho interessante como certas pessoas sobem rápido demais… sem perceber quantas forças estão observando cada passo.
Fez uma pausa curta.
— Quedas costumam ser proporcionais à altura.
Isabella engoliu em seco.
Helena se afastou novamente, deixando para trás apenas o eco da sugestão.
Perto do bar, Vittória observava as duas à distância.


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