A mansão Montenegro estava diferente naquela noite. Desde a chegada de Vittória, o ambiente tinha ficado mais denso. Mais rígido. Como se as paredes lembrassem exatamente quem mandava ali antes… e estivessem curiosas para saber se continuaria assim.
Valentina sentiu isso no instante em que entrou no próprio quarto e fechou a porta atrás de si.
Sozinha.
E, pela primeira vez naquela casa, isso não soou como exclusão. Soou como escolha.
O vestido estava estendido sobre a poltrona, esperando por ela.
Azul royal.
Não um azul qualquer. Não um tom suave, apagado, conciliador. Era um azul profundo, firme, quase majestoso — o tipo de cor que não pede licença nem tenta agradar.
O tecido era fluido, acetinado na medida certa, com um caimento que prometia acompanhar o corpo sem aprisioná-lo.
Valentina se aproximou devagar.
O vestido tinha alças finas, elegantes, que deixavam os ombros à mostra. O decote era preciso — não provocante demais, não tímido — apenas o suficiente para revelar segurança. A cintura era marcada com sutileza, e a saia descia em linhas limpas, abrindo levemente a partir do quadril, criando movimento, imponência… presença.
Ela passou os dedos pelo tecido como quem reconhece uma arma bem escolhida.
— Então é você… — murmurou para o espelho.
O banho foi rápido. Não havia ansiedade, apenas foco. Quando saiu, o cabelo ainda úmido foi secado e preso parcialmente para trás, deixando algumas mechas soltas emoldurando o rosto. A maquiagem foi leve, estratégica: pele impecável, olhos marcados com elegância, boca em um tom neutro que dizia controle.
Quando vestiu o azul, Valentina não sorriu.
Endireitou a postura.
A mulher que o espelho devolveu não estava se preparando para agradar uma família poderosa.
Estava pronta para entrar em um cenário que tentaria engoli-la… e sobreviver ilesa.
Lá embaixo, o clima era outro.
Vittória caminhava de um lado para o outro no salão principal, o vestido verde-escuro perfeitamente estruturado, joias douradas captando cada foco de luz. Augusto ajustava a gravata dourada com a paciência de quem já conhecia aquele ritual há décadas.
— Ela está atrasada. — Vittória disse, seca. — Uma Montenegro não faz os outros esperarem.
Rafael, encostado perto da escada, permanecia em silêncio. O terno preto estava impecável, clássico — mas havia um detalhe que só ele sabia o peso que tinha: a gravata azul. O tom conversava discretamente com algo que ainda não tinha descido.
— Mamãe… — ele disse, a voz controlada. — Acho que um mês no retiro espiritual foi pouco.
Vittória virou o rosto na hora.
— Como é?
— Você continua impaciente. — Rafael completou, sem elevar o tom.
Ela bufou, ofendida. Augusto pigarreou.
— Vittória, chega. — disse, baixo, mas firme.
Ela fechou a cara, mas se calou.
Foi então que tudo mudou passos suaves na escada chamou sua atenção.
Rafael levantou o olhar.
E o mundo desacelerou.
Primeiro, os pés.
Sapatos de salto fino, no mesmo azul do vestido, surgiram no degrau superior. Elegantes, seguros. Depois, a linha do tornozelo, a panturrilha firme, a saia do vestido acompanhando cada movimento com fluidez calculada.
O olhar dele subiu.
A cintura marcada. O tecido abraçando o corpo com precisão cirúrgica. O tronco ereto, os ombros à mostra, a clavícula delicadamente iluminada.
Rafael não sorriu.
Mas o ar deixou seus pulmões mais devagar.
O rosto veio por último.
Valentina descia as escadas com calma, a mão leve sobre o corrimão, o queixo erguido na medida exata entre confiança e elegância. Os olhos atentos, vivos. Não buscavam aprovação. Não pediam acolhimento.
Ela pertencia àquele espaço — gostassem ou não.
Quando chegou ao último degrau, o silêncio era absoluto.
— Boa noite. — ela disse, com naturalidade.
Rafael deu dois passos à frente, aproximando-se dela apenas o suficiente para que só ela ouvisse.
— Você está linda. — disse, baixo. Sem exagero. Sem pose.
Valentina sorriu para ele. Um sorriso curto. Íntimo.
Vittória foi a primeira a reagir.
— Azul? — disse, chocada, percorrendo Valentina dos pés à cabeça. — O dress code não é verde e dourado. O que significa essa roupa? Você enlouqueceu?
Valentina virou-se lentamente para ela.
— Boa noite, minha sogra. — respondeu, doce demais para ser inocente. — Fico feliz que tenha voltado tão espirituosa do retiro. Fez bem à sua pele… está iluminada. Juvenil.
O golpe foi limpo.
Vittória abriu a boca. Fechou. Não encontrou resposta que não a fizesse parecer exatamente o oposto de iluminada.
Valentina virou-se novamente para Rafael e ofereceu o braço.
— Vamos? — disse. — Se não, vamos nos atrasar.
Rafael segurou o braço dela.
Por um segundo — apenas um — quase sorriu.



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