Apenas dois dias antes, Inês o encontrara. Ele agira com total naturalidade e, repleto de falsa indignação, prometera não perdoar quem quer que houvesse traído Afonso, caso o culpado fosse descoberto.
Quem diria que o próprio homem era o traidor!
Após finalizar a leitura, Inês fechou o dossiê e fitou Ibsen:
— Sr. Serpa, estes documentos serão de imensa utilidade. Muito obrigada!
— Contanto que ajudem, já fico satisfeito.
Passando a pasta para Valdir, Inês apanhou o cardápio e o abriu:
— O que o Sr. Serpa deseja pedir?
— O que você preferir. Pode escolher por mim.
— Está bem.
Inês selecionou alguns dos pratos mais caros, acrescentou algumas das especialidades da casa e devolveu o menu ao garçom.
— Isso será tudo por enquanto.
O garçom repassou os pedidos com Inês para confirmá-los e retirou-se com o cardápio.
Inês dirigiu o seu olhar a Ibsen e declarou:
— Sr. Serpa, tenho um horário marcado com um cliente e já estou quase atrasada. Sendo assim, não poderei lhe fazer companhia durante a refeição. Caso a comida não seja suficiente, sinta-se à vontade para solicitar mais aos garçons. A conta ficará sob a minha responsabilidade. Com a sua licença, preciso me retirar.
Dito isso, sem ao menos aguardar a reação de Ibsen, ela ergueu-se e caminhou apressadamente em direção à saída do restaurante.
Valdir ficou atordoado por um segundo, mas logo se pôs de pé e a seguiu.
Somente quando já estavam fora do estabelecimento, Valdir questionou:
— Srta. Inês, tratando o Sr. Serpa dessa maneira, não teme provocar a sua ira?
O semblante de Inês permanecia imperturbável:
— Fique tranquilo, ele não ficará ofendido.
— Como tem tanta certeza?
— Porque eu o conheço.
— Ibsen, onde você estava esse tempo todo?! Sabia que Mayra sofreu uma queda e agora está internada no hospital? Receio que ela não consiga segurar a criança!
As pupilas de Ibsen retraíram-se abruptamente, em choque ao constatar que, desta vez, o acidente de Mayra não era uma farsa.
— Em qual hospital ela se encontra?!
Após Fausta informar o nome da instituição, Ibsen acelerou em direção ao local.
Ao alcançar a porta do centro cirúrgico, deparou-se apenas com Fausta, que aguardava sozinha no corredor, sob a luz de aviso que indicava uma operação em andamento.
Ao escutar os passos apressados, Fausta ergueu a cabeça. Quando os seus olhos recaíram sobre Ibsen, o seu semblante contorceu-se em fúria. Levantou a mão e deferiu-lhe um tapa estrondoso no rosto.
— O que você estava fazendo afinal?! Mayra disse que telefonou para você, avisando que havia sofrido uma queda, mas você simplesmente não acreditou nela! Se ela perder o bebê, a culpa será inteiramente sua!
O rosto de Ibsen virou-se com a força do golpe, e uma marca avermelhada de dedos espalhou-se rapidamente pela sua bochecha.
Ele abaixou a cabeça, permanecendo em silêncio.
Fausta desviou o olhar, ignorando a sua presença.
Após o que pareceu uma eternidade, a porta do centro cirúrgico finalmente se abriu.

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