Hortensia se aproximou da mesa e espiou por cima do ombro de Ema.
— Isso tudo é dele?
Henrique assentiu.
— Ou de gente trabalhando para ele.
Ema passou os olhos rapidamente por mais um conjunto de folhas.
Havia nomes de funcionários antigos, acessos a registros, tentativas de localizar documentos que remontavam exatamente ao período da gravidez.
Ela fechou o envelope devagar.
— Você tem noção de como isso é grave?
Henrique apoiou as mãos na beirada da mesa e respondeu, muito mais sério do que de costume:
— Tenho. E foi por isso que eu trouxe.
Ema o observou em silêncio por alguns segundos.
Depois perguntou:
— Por que está me ajudando?
Henrique não sorriu dessa vez.
— Porque o Alípio, quando decide colocar alguma coisa na cabeça, para de enxergar limite. E porque, sinceramente, eu não gosto do que isso está virando.
A resposta era simples demais para alguém como ele.
Ainda assim, Ema acreditou.
Talvez porque soasse cansada. Talvez porque soasse verdadeira.
— Obrigada — disse, por fim.
Henrique inclinou levemente a cabeça, como se quisesse aliviar o peso do momento.
— Aproveita e agradece agora, porque provavelmente daqui a uns dias você volta a me tratar como praga.
Hortensia soltou um bufo.
— Se depender de mim, já trato.
Henrique sorriu de lado, mas logo voltou a olhar para Ema.
— Manda isso pros teus advogados ainda hoje.
Ela assentiu.
— Vou mandar agora.
Assim que Henrique saiu, Ema digitalizou imediatamente todo o material e encaminhou para Helena e para o outro advogado.
Menos de vinte minutos depois, Helena ligou.
— Isso muda bastante coisa.
— Para melhor ou para pior? — perguntou Ema.
— Então faz.
Ema soltou uma risada fraca.
— Você nem fingiu pensar.
— Porque não precisa pensar. — respondeu Hortensia. — Apoio psicológico não é fracasso, Ema. É ferramenta.
A palavra ficou ecoando.
Ferramenta.
Talvez fosse mesmo isso que ela precisava enxergar.
Não como sinal de fraqueza.
Mas como parte da preparação.
No começo da tarde, ela saiu para a consulta indicada por Helena.
No carro, sozinha, o silêncio pesava mais do que o normal.
Pela primeira vez em muitos anos, permitiu-se admitir algo com clareza brutal:
não era só medo de perder os filhos.
Era também o terror de ser arrastada de volta para uma versão da própria vida em que sua vontade não valia nada.
E essa segunda parte ainda doía quase tanto quanto a primeira.

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