Na manhã seguinte, a casa parecia estranhamente normal.
As crianças desceram sonolentas, brigaram por cereal, derrubaram suco na mesa, riram alto por uma bobagem qualquer e, por alguns minutos, Ema quase conseguiu se convencer de que o mundo ainda estava no lugar.
Givaldo apareceu depois, já vestido para sair, e tomou café em silêncio com elas.
Érica levantou os olhos e perguntou, toda espontânea:
— Você dormiu aqui?
Givaldo respondeu com naturalidade:
— Dormi.
Kleber imediatamente completou:
— Então hoje você leva a gente na escola?
Ema e Givaldo trocaram um olhar breve antes de ele responder:
— Hoje sim.
As crianças comemoraram como se aquilo fosse um grande presente.
Ema forçou um sorriso.
Qualquer pequena mudança de rotina ganhava peso demais na cabeça dela agora.
No caminho até a escolinha, Givaldo dirigiu, e Ema foi no banco do passageiro. No banco de trás, os três conversavam sem parar.
Quando deixaram as crianças e voltaram ao carro, o silêncio veio pesado.
Foi Ema quem falou primeiro:
— Eles vão começar a perceber.
— Sim. — respondeu Givaldo.
— E eu não quero que cresçam achando que a vida deles sempre dependeu de segredo e vigilância.
Ele segurou o volante por alguns segundos sem arrancar.
— Então a gente faz isso durar o mínimo possível.
A resposta era razoável. Ainda assim, não acalmava nada dentro dela.
...
No estúdio, a rotina já tinha sido discretamente alterada.
Controle mais rigoroso na entrada.
Novas instruções para a equipe.
Documentos sensíveis guardados com mais restrição.
Aquele tipo de mudança quase invisível para quem vinha de fora, mas claríssima para quem vivia ali.
Hortensia apareceu na sala de Ema segurando uma pasta e um café.
— Agenda de hoje e cafeína para a sobrevivência.
Ema aceitou a xícara.
— Obrigada.
Hortensia observou o rosto dela por alguns segundos.
— Você está pior do que ontem.
— Incentivador.
— Realista. — corrigiu Hortensia. — E o Sr. Amorim dormiu aí mesmo?
Ema lançou-lhe um olhar lateral.
— Dormiu no quarto de hóspedes.
Hortensia ergueu as sobrancelhas e levantou as duas mãos.
— Eu não falei nada.
Carregava um envelope pardo na mão.
— Bom dia para as mulheres mais claramente cansadas desta cidade.
Hortensia revirou os olhos.
— Que entrada charmosa.
Henrique ignorou o comentário e foi direto até a mesa de Ema.
— Trouxe isso porque achei melhor te entregar pessoalmente.
Ela pegou o envelope.
— O que é?
— Cópias de movimentações e alguns contatos que indicam que o Alípio já está abrindo mais frentes do que você imagina.
O estômago de Ema se contraiu.
Abriu o envelope na mesma hora.
Dentro havia impressões, nomes, horários, ligações cruzadas, referências à clínica, ao cartório, a um antigo funcionário ligado ao laboratório do exame...
Ela ergueu lentamente os olhos para Henrique.
— Como você conseguiu isso?
Ele deu de ombros.
— Não pergunta o método. Foca no conteúdo.
Ema virou mais algumas páginas.
A cada folha, a sensação era mais clara: Alípio não estava apenas reagindo ao reencontro.
Ele vinha remontando o passado com estratégia.
E vinha fazendo isso rápido.

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