— Senhora, é hora de tomar o remédio.
Clarice Adriel tomou mecanicamente o remédio para engravidar que sua sogra havia conseguido, sob o olhar atento de Paula. Sua voz soou gélida.
— Pode ir na frente. Eu voltarei assim que a cerimônia de despedida terminar.
Clarice levantou-se e ajeitou a barra do vestido. Com o olhar perdido em algum ponto distante, um sorriso de pura autodepreciação desenhou-se em seus lábios.
De que adiantava tomar tantos remédios para engravidar, se ainda era virgem?
Seu marido não voltava para casa havia seis meses.
Ao abrir a porta, vozes não muito contidas chegaram aos seus ouvidos.
— Orlando sabe mesmo aproveitar. Trazer a garota para um lugar como este... Seria o maior constrangimento se a Clarice visse!
— Ah, e daí se ela vir? É só uma substituta. Uma desesperada sem amor-próprio não tem o direito de achar nada.
— Verdade. Se bobear, mesmo se visse, ainda teria que limpar a bagunça do Orlando!
Substituta. Uma desesperada sem amor-próprio?
Clarice remoeu aquelas palavras repetidamente, como se revivesse o próprio passado humilhante.
Pela ganância de provar um resquício do calor que sentiu no passado, ela se sujeitou a ser uma substituta, sempre na esperança de que, um dia, ele se lembrasse da história que tiveram.
Depois, eles realmente começaram a namorar. Ela contava os dias de uma época que julgava ser perfeita.
E então se casaram. Ela continuou contando os dias, mas a casa havia se transformado em uma prisão solitária só para ela.
As duas vozes continuaram:
— Não é à toa que ela é a dona do coração do Orlando. Ele a leva para todo lado. Já estão lá dentro há mais de uma hora e nada de terminarem. Será que a gente bate na porta para dar um toque?
— Deixa de ser intrometido. Orlando sabe o que faz. Vamos indo na frente.
Quando os passos se distanciaram, Clarice caminhou até o quarto que eles haviam mencionado.
Gemidos baixos e sensuais se misturavam a suspiros intensos e respirações ofegantes.
Parada diante da porta, o corpo de Clarice estremeceu. Aquelas vozes...
Como se guiada por uma força invisível, ela empurrou a porta suavemente, abrindo uma fresta.
O que viu foi a sua própria ruína.
A cama balançava, emitindo rangidos rítmicos. Sobre ela, duas silhuetas familiares se entrelaçavam.
O ar gélido da funerária, impregnado com o cheiro de cera derretida e flores murchas, penetrou até os seus ossos.
Melissa Gomes?
A atriz medíocre. O grande amor inesquecível de Orlando Carneiro. Ela havia voltado.
— Volte amanhã. Cuide bem da gravidez e tenha o nosso bebê em paz. Essa criança será a única herdeira da Família Carneiro.
— Ah, Orlando, espera mais um pouquinho! Só mais um mês, por favor? Vai mesmo me mandar embora tão rápido... não vai sentir minha falta?
Foi como um golpe fulminante. Clarice quase desabou.
Uma dor aguda rasgou seus lábios. Só então percebeu que havia mordido a própria boca até sangrar. Uma gota carmim escorreu, pintando um contraste trágico e sombrio em seu rosto pálido.
Cravou as unhas na palma das mãos, buscando na dor física uma âncora para a sua sanidade.
A voz familiar soou acima de sua cabeça. No segundo seguinte, ela foi erguida e carregada nos braços.
O conhecido aroma de cedro invadiu suas narinas, mas, desta vez, vinha misturado a um perfume doce e enjoativo.
Orlando a levou até uma cadeira num canto afastado. Ele se agachou, as palmas grandes e quentes cobrindo os joelhos dela, massageando-os com suavidade.
— Você já machucou os joelhos antes. Não pode passar frio. — O tom de voz dele tinha a mesma doçura de sempre.
Mas, logo em seguida, ele se inclinou perto do ouvido dela e sibilou um aviso ríspido:
— Qual é o significado disso? Ficar ajoelhada lá... Você está tentando me humilhar em público?
Como Clarice não respondeu, ele levantou os olhos, apenas para paralisar em choque.
O rosto dela estava tão pálido quanto papel de seda. O olhar, assustadoramente vazio, fazia a pequena pinta vermelha no canto de seu olho parecer ainda mais exótica e fatal.
Grossas gotas de suor misturavam-se às lágrimas, rolando pelo queixo e pingando no colarinho.
Um vermelho vivo começou a escorrer pelo canto de seus lábios, pingando, gota a gota, tecendo uma melodia funesta.
E então, um estalo ecoou.
O som ardido do tapa foi quase abafado pela música de luto.
Orlando virou o rosto com o impacto, atordoado. Seus olhos transbordavam confusão e incredulidade.
Clarice olhou no fundo de seus olhos, e um sorriso lento despontou em seus lábios. Uma expressão desoladora, mas dotada de uma resolução inquebrável.
— Orlando, vamos nos divorciar.
O mundo de Clarice escureceu, e ela desabou no chão como um peso morto.

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