Jamil não estava acorrentado, portanto, ainda conseguiu entrar no salão com alguma pompa, com a cabeça erguida, sem nem olhar para ninguém. Muito diferente daquele que Lucretia conheceu quando chegou ao bando, tão “bonzinho” e tão compreensivo.
No entanto, as pessoas que o viam entrar o encaravam com desgosto, murmurando palavras de desagrado.
— E ele ainda age como se estivesse sendo a vítima! — alguém gritou da plateia.
— Se fosse um ômega, estaria arrastando correntes!
E isso era verdade. Mas como ele ocupou um cargo alto, estava tendo um tratamento diferente.
— Eu sou o Conselheiro desse bando! — Jamil acabou gritando.
— Era — Rhys o corrigiu e Jamil virou o rosto para o Alfa. — Era, Jamil Graham. Hoje, você ainda é um membro da nossa comunidade.
As palavras de Rhys o atingiram onde doía. Uma coisa que Jamil sempre teve orgulho foi de ocupar a posição de Conselheiro do Alfa. Nem todos os bandos possuíam aquele cargo, apenas os mais desenvolvidos. E o pai de Rhys, Joseph, o criou especialmente para Jamil, pois o considerava amigo. Ele não podia ocupar a posição de Beta porque não possuía sangue Beta. Mas deu a ele o poder equivalente no que se referia a estar abaixo do líder.
Rhys repuxou os lábios, mantendo o controle, pois o que ele queria era rasgar Jamil. Depois de saber como o macho era bem visto, principalmente pelo pai, ele sentia a dor da traição. Pensar que alguém que foi tão ajudado e considerado poderia cometer um ato tão vil.
Jamil foi colocado no meio do salão, virado para os Anciãos.
— Jamil Graham, antigo Conselheiro do Bando ShadowBlood, hoje iremos julgá-lo pelos provas que foram apresentadas e, em seguida, se for devida, será dada a punição.
No mundo dos lobisomens, não existia isso de Apelação. Se Jamil fosse considerado culpado, a punição era imediata, sem volta. Havia exceção? Sim, caso alguma prova da inocência, contundente, aparecesse. Caso contrário, o que quer que fosse dito ali, seria eterno.
— Jamil Graham, o vídeo apresentado mostra que o senhor e a Luna Bellanti estavam em comum acordo para envenenar o Alfa Bellanti com Prata Viva e, depois disso, quem mais fosse necessário. Incluindo a Luna Jarsdel.
A questão da traição amorosa, não era da conta do Conselho. Isso era algo que o Alfa Bellanti deveria resolver, depois.
— Essa foi a desculpa. Eu não podia chamá-los aqui dizendo que a Luna Bellanti estava praticando magia, não é mesmo? — Jamil devolveu, já perdendo a paciência.
O Ancião estava acostumado àquele tipo de reação. Normalmente o acusado que era culpado não admitia ter o dedo apontado para ele, e, era evidente, quanto mais se perguntasse, quanto mais se remexesse na ferida, mais sujeira sairia de lá, e seria mais difícil contornar a situação.
— Uma desculpa. Então, o que o senhor disse no início da Reunião, sobre o Alfa Rhys, não era verdade?
Jamil fechou os olhos. Tudo estava caindo ao redor dele!
— Eu não retiro as palavras. Ele realmente não está em estado para comandar. Mas… temos fé que a Deusa da Lua irá curá-lo — ele falou, tentando parecer calmo, até mesmo oferecendo um sorriso. — Mas enquanto isso… Eu estou no bando há mais tempo do que ele. Dediquei meus anos todos a esse Bando. Nem mesmo acasalei. Então… quem mais indicado? Quem mais experiente?
O Ancião puxou o ar, encheu os pulmões lentamente e não tirou os olhos de Jamil.

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