"Tem caminho que a gente faz pra fugir e termina voltando para as mãos do caçador." — (Anotação de R.)
[Continuando Flashbacks de Renata...]
... A barriga foi crescendo, e com ela, um turbilhão de inquietações silenciosas.
No início, o bebê se movia como se fosse uma borboleta perdida, batendo asas com delicadeza dentro de mim — movimentos tímidos, quase secretos. Eu pousava a mão sobre a pele esticada, sentindo aquele pequeno universo pulsar, e um sorriso bobo escapava sem que eu pudesse conter.
— Vem cá, Guilherme... — chamava, a voz carregando uma mistura de urgência e encanto.
— Sente isso? Ele está dançando... E, naquele instante, não era só o bebê que se movia. Era o mundo inteiro, girando diferente, só para nós três.
Ele vinha, encostava a palma quente na minha barriga, esperava. Quando sentia, os olhos se iluminavam de um jeito que eu nunca tinha visto nele, nem na Casa, nem em contrato nenhum.
Depois de um tempo, eu não precisei dizer mais nada. Os chutes eram visíveis, minha pele se levantando em pequenas ondas, como se ele estivesse procurando uma saída.
...
Até que, devagar, quase sem eu perceber, começou a diminuir.
Uma noite, deitada de lado na cama, eu percebi que fazia tempo demais que não sentia o empurrão familiar.
Virei de um lado, do outro. Nada.
— Deve estar dormindo — murmurei para mim mesma, tentando acalmar. — Ou virado de costas. Ou... sei lá.
Passei a mão na barriga, desenhando círculos.
— Ei, pequeno. Dá um sinal.
Silêncio.
Naquela noite, pela primeira vez desde que cheguei à Alameda, o cheiro de jasmim me incomodou. Era doce demais. Intrusivo demais. Parecia querer esconder alguma coisa de novo.
Apertei os olhos, a palma da mão pressionada sobre o umbigo.
No fundo, eu sabia: alguma coisa tinha mudado.
E, como sempre na minha vida, ia ser o corpo a avisar primeiro.
...
Passei a madrugada inteira com a mão pousada sobre a barriga, implorando em silêncio por um chute que não vinha.
Virei-me para um lado, depois para o outro, como se pudesse encontrar a resposta em um ângulo diferente. Sentei-me na beirada da cama, hesitante, antes de me erguer. Meus passos ecoaram suaves pela sala mergulhada na penumbra, e, a cada movimento, carregava a esperança silenciosa de que o leve compasso do meu corpo fosse capaz de arrancá-lo do sono — ou, talvez, daquela inércia.
Nada.
Antes, bastava um toque leve para que ele me respondesse com aquele empurrãozinho atrevido, quase debochado, como quem diz: "ainda estou aqui, não se preocupe".
Mas naquela noite, o vazio dentro de mim era tão profundo que parecia engolir o som do mundo. E, no silêncio absoluto, comecei a ouvir o murmúrio do meu próprio sangue correndo, como se fosse o único testemunho de que ainda havia vida ali.
— Vai, pequeno... — sussurrei, fazendo círculos sobre a pele esticada. — Me dá só um sinal. Qualquer um.
O jasmim na janela exalava um perfume que, em outros dias, me acalmava. Naquele, parecia doce demais, invasivo demais, como se tentasse encobrir um cheiro que eu não queria nomear: medo.
Guilherme só voltaria dali a dois dias. Eu sabia. Tinha decorado os horários, as janelas, o toque de campainha. Tinha aprendido a viver de semana em semana, de visita em visita.
Mas agora não dava.
Uma frase se formou inteira na minha cabeça, dura como sentença:
Se meu filho se calar para sempre dentro de mim porque esperei demais, esse peso vai me esmagar até o último dia da minha vida.
Eu me sentei na beirada da cama, e o coração começou a bater de um jeito torto — não era pânico, era a urgência crua de uma escolha que não podia mais adiar. Então, me levantei como quem atravessa um limiar invisível.
Abri o guarda-roupa sem pensar, puxei a primeira calça que ainda me servia, uma blusa larga demais, um casaco que não combinava com nada. Prendi o cabelo num rabo de cavalo apressado, sem me permitir encarar o espelho — não queria ver o medo estampado no meu próprio rosto.
A chave repousava no aparador — no mesmo lugar de sempre ― quando meus dedos a envolveram o metal frio soou com um tilintar seco, um som que se espalhou pelo apartamento como se denunciasse, sem piedade, a minha escolha.
— Eu volto rápido — murmurei, sem saber se falava para o bebê adormecido, para as paredes gastas ou para a parte de mim que ainda hesitava.
A porta abriu com um rangido breve. O corredor me recebeu com um cheiro de desinfetante barato. O elevador, preguiçoso, subia do térreo como se arrastasse séculos.
Enquanto esperava, uma fisgada discreta atravessou minha barriga — não era dor, era lembrança. Ele está ali. Está vivo. Eu só preciso confirmar.
...
Escolhi um hospital qualquer que eu via sempre da janela, a três quadras de distância. Prédio alto, fachada de vidro, bandeira tremulando na porta. Hospital “normal”. Gente com dor de cabeça, braço quebrado, gripe, parto de rotina.
Era isso que eu queria: rotina. Médicos distraídos demais com plantão para se importar com meu passado.
Na recepção, a fila lenta me ajudou a respirar.
Quando chegou minha vez, a atendente não levantou os olhos do computador.
— Nome completo?
A pergunta me atravessou.
Helena era risco. Helena era a mulher que constava nas planilhas da Casa, na cabeça de Aurélia, nos contratos. Se eu falasse Helena ali, em voz alta, parecia que ia materializar alguma coisa.

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