“A diferença entre vítima e algoz às vezes cabe numa cápsula dissolvida em vinho.” — Anotação de R.
[...]
As mãos dele começaram a explorar meu corpo.
Não havia ternura nisso.
Havia urgência química. Necessidade primitiva que a droga despertou e amplificou em algo quase animal.
Dedos pressionando com avidez. Apertando. Mapeando meu corpo como território a ser conquistado, não pessoa a ser tocada.
Aquilo me deixava profundamente desconfortável.
Não. Pior que desconfortável.
Me deixava nua de um jeito que não tinha nada a ver com roupa. Exposta. Vulnerável. Usada exatamente como eu estava usando ele.
Mas o que eu esperava? Romance sob efeito de droga que eu dei? Delicadeza em transação que eu forcei? Consideração depois de roubar o consentimento dele?
Eu tinha orquestrado isso.
Tinha transformado desejo em arma. Química em algema. Corpo em instrumento da minha fuga.
E agora sentia nojo — não só dele, mas principalmente de mim.
O espelho que eu queria evitar estava ali, na urgência brutal das mãos dele sobre minha pele: reflexo exato da violência que a Casa praticava.
Eu me tornei a Casa.
Aquele ato não era encontro de dois corpos desejando um ao outro. Era palco de acerto de contas. Demolição calculada. Sabotagem estratégica.
Comecei a repetir para mim mesma como mantra silencioso:
Transação química. Vingança molecular. Crime necessário.
Como se repetir as palavras pudesse torná-las verdadeiras. Como se pudesse apagar a culpa que já começava a crescer nas bordas da minha consciência.
Então a dor veio.
Não foi gradual. Não foi suave.
Foi como lâmina fina sendo empurrada através da carne — corte preciso, inevitável, impossível de ignorar.
Aguda. Queimando. Rasgando algo que não podia ser refeito.
Mordi o lábio inferior com força até sentir gosto metálico de ferro na boca. Sangue misturado com saliva.
Abafei qualquer som que tentasse escapar da garganta.
Não lhe daria a ilusão de acreditar que estava me ferindo. Não lhe daria esse poder.
Eu não era vítima.
Era arquiteta da minha própria destruição. Era general sacrificando soldado em batalha maior.
De repente ele hesitou.
Sentiu — claro que sentiu — a rigidez do meu corpo sob o dele. A resistência que se quebrava centímetro por centímetro. A tensão que não conseguia esconder completamente.
A respiração dele falhou. Ficou presa no peito por segundo inteiro.
A pergunta veio num sussurro tenso, quase desesperado:
— Está tudo bem?
Abri os olhos devagar.
O encarei diretamente. Sem piscar. Sem desviar.
A voz saiu firme como aço forjado. Sem tremer. Sem súplica. Sem vulnerabilidade.
Era comando:
— Continua.
Não “por favor”. Não “está tudo bem”. Não “eu aguento”.
Apenas: continua.
Ele obedeceu.
Porque não conseguiria parar mais, nem se quisesse. O afrodisíaco tinha reescrito suas prioridades. Tinha reduzido tudo ao nível mais básico e primitivo. Eu tinha tirado essa responsabilidade dele.
Já não havia escolha. Nem para ele, nem para mim.
Apenas a marcha inevitável de um destino que eu mesma tinha escrito com química e desespero.
Fechei os olhos novamente.
E me concentrei não na dor física — que ainda estava ali, pulsando, latejando — mas no significado.
Porque não se tratava da mecânica do ato.
Tratava-se do que estava sendo destruído naquele momento:
Uma cláusula estava sendo rasgada enquanto nossos corpos se moviam em ritmo que não era prazer, era apenas função.
Um contrato sendo anulado enquanto ele murmurava meu nome falso contra minha pele suada.



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