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A Pele Que o CEO Não Esqueceu romance Capítulo 98

“Promessa não paga aluguel do medo.” — Anotação de R.

[Flashback de Renata ...]

Os dias viraram.

Não rotina. Virar é diferente. Rotina se repete. Virar apenas acontece, como página que o vento leva sem pedir licença.

Acordar. Cortina. Luz entrando pela fresta como invasora educada.

A cidade lá fora tinha ângulo novo — não era vitrine onde me exibiam, não era cativeiro onde me trancavam. Era apenas... cidade. Indiferente. Viva. Alheia a minha presença.

Contava o tempo pelas sombras no prédio da frente. Sombras mentiam menos que relógios. Buzinas lá embaixo marcavam horas que não tinham nome. O caminhão de lixo às quartas era calendário que ninguém me ensinou a ler, mas eu aprendi mesmo assim.

Não tinha documentos. Não tinha carteira. Não tinha sobrenome que fosse meu de verdade.

Tinha um guarda-roupa com meia dúzia de peças neutras — cores que não chamam atenção, tecidos que não fazem barulho — e um pé de jasmim insistindo em viver no parapeito da janela, apesar de tudo, apesar de mim.

...

À noite. Às vezes. Eu me sentava encostada na porta, ouvindo o prédio respirar. Água nos canos. Passos no andar de cima. Televisão atravessando parede.

E então: a campainha.

Dois toques. Pausa. Um toque.

Senha particular. Código nosso.

Quando tocava assim, o peito desacelerava. Como se o coração soubesse antes da cabeça: ele voltou.

...

Ele entrava sempre do mesmo jeito.

Um pouco cansado. Um pouco armado. Um pouco meu.

Sacolas no chão — comida, remédio, jornal, coisas do mundo que ele trazia pra dentro como quem contrabandeia normalidade.

Chave na bandeja. Som metálico de chegada.

Beijo na testa primeiro. Sempre primeiro. Como quem verifica temperatura, como quem diz ainda está aqui, ainda está viva.

Boca depois. Mais demorado. Menos checagem, mais necessidade.

...

No começo, a gente só se olhava.

Tinha esse silêncio grande entre nós. Não vazio — cheio. Cheio de tudo o que não cabia em palavras, de tudo que a boca não sabia dizer sem quebrar.

Depois vieram as conversas.

Longas. Sentados no chão da sala, as costas apoiadas no sofá como se o sofá fosse muralha. Duas canecas — café ou vinho, dependia da noite — apoiadas num livro usado como mesa improvisada.

E ali, entre goles e pausas, a gente se descobria.

Camada por camada. Como quem desembrulha algo frágil. Algo precioso. Algo que pode quebrar se você apertar demais ou segurar de menos.

...

Ele falava de fora.

Dos movimentos da Casa. Dos recados que Aurélia mandava como quem manda flores envenenadas. Dos homens que perguntavam “e a menina?” — sempre sem usar meu nome, como se nome fosse luxo que eu não merecia mais.

Eu falava de dentro.

Do medo que vinha do nada, sem aviso, sem motivo. Da sensação de ainda estar presa mesmo com a porta destrancada. Da dificuldade de dormir sem câmera me espionando — o corpo ainda esperava ser vigiado, ainda se encolhia como se alguém fosse entrar de madrugada.

Da culpa por ter quebrado o contrato.

E, ao mesmo tempo — culpa maior, mais pesada — do alívio.

...

Às vezes a conversa morria.

E o corpo assumia.

Os beijos começaram tímidos. Com cuidado de quem encosta num machucado ainda aberto. Medo de machucar. Medo de ser machucada.

Depois ficaram menos ensaiados.

A urgência da primeira vez — aquela urgência de destruir, de rasgar contrato com pele — cedeu lugar a outra coisa.

Reconhecimento.

Um tipo de fome que não era só sexo. Era de paz. Era de pele segura. Era de corpo que não precisa se defender o tempo todo.

No colo dele, meu corpo começou a se sentir casa.

Não moeda.

Não mercadoria.

Casa.

...

Foi ali, naquela sala pequena — chão frio, sofá velho, jasmim teimoso na janela — que o amor entrou.

De mansinho.

Sem anúncio. Sem declaração. Sem música de fundo nem luz de cinema.

Quando percebi, já estava.

Como planta que cresce em rachadura. Como raiz que encontra água onde não deveria ter água.

Amor. Essa coisa estranha. Essa coisa perigosa.

Amor.

...

A gravidez chegou primeiro no peito.

Depois no exame.

As menstruações sempre foram desreguladas na Casa — coquetel hormonal que enfiavam em nós como quem tempera carne. Pele, cabelo, humor “no padrão”. Calendário rígido. Corpo obediente.

Ali, sem rotina de remédios, sem vigilância química, eu perdi a conta dos dias.

Mas o corpo não perde.

Corpo não esquece.

Corpo sabe antes da cabeça, antes do teste, antes de qualquer confirmação oficial.

...

Os seios começaram a doer.

Diferente. Não dor de ciclo. Dor de algo está mudando aqui dentro.

O cheiro do café — meu velho aliado, meu ritual matinal — de repente me dava náusea. Como traição olfativa. Como se até o café tivesse se virado contra mim.

O mundo começou a girar devagar. Nos momentos errados. Sem aviso.

Foi no terceiro enjoo seguido que eu olhei para o espelho do banheiro.

Mãos nas bordas da pia. Brancas de tanto apertar.

E pensei — sem coragem de dizer em voz alta, nem pra mim mesma:

Será que estou grávida?

...

Naquela noite, quando ele chegou com as sacolas, eu falei antes mesmo de ele largar as chaves.

— Trouxe comida?

— Comida, remédio, jornal... — voz automática, lista decorada.

— Preciso de um teste de farmácia.

Pausa.

Ele me olhou. O ar sumiu do rosto por um segundo inteiro. Como se alguém tivesse puxado o chão debaixo dele.

— Você acha que...?

— Eu não acho — cortei. — Eu sinto.

...

Ele assentiu.

Não fez drama. Não perguntou “tem certeza?”. Não sugeriu esperar mais um dia, mais uma semana, mais um sinal.

Só saiu de novo. Rápido. Chave na mão. Porta batendo.

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