[...]
Um silêncio espesso caiu entre nós. As palavras ficaram reverberando na minha cabeça.
“Você me escolheu.”
“Estragar o contrato.”
Uma faísca súbita atravessou a penumbra da minha mente — não era lembrança inteira, mas um estilhaço: um quarto mergulhado no breu, o perfume denso de jasmim impregnando o ar, uma mão que não feria, um calor que não nascia do medo.
Meu corpo reconheceu antes que a razão alcançasse. Os dedos se cravaram na borda da mesa, como se aquele pedaço de madeira fosse a única âncora contra o abismo que se abria sob meus pés.
— Eu nunca… deveria — a frase tropeçou na garganta, áspera, quase um sussurro. — ... ter escolhido você pra nada. Não depois da sala branca. Não depois da assinatura.
Ele me olhou com algo que eu não soube nomear. Não era pena. Não era soberba. Talvez fosse luto.
— Mas escolheu — disse, baixo. — Quando ainda era Helena. Quando ainda acreditava que podia vencer o jogo usando as regras deles contra eles.
Fez uma pausa.
— Não sei se foi a melhor coisa que você poderia ter feito. Para você. Mas para eles, foi o início do fim.
A xícara de café entre nós já estava fria. O dia também.
Eu só pensei uma coisa:
Se o peso do que já me lembrava era capaz de rasgar por dentro dessa forma… então o que estava por vir talvez fosse o corte final, a fronteira irreversível entre a mulher que sou e a que um dia fui.
Ainda assim, minhas mãos permaneceram firmes sobre a mesa, como se o simples ato de ficar sentada fosse minha última defesa contra o colapso.
— E… e depois? — minha voz saiu hesitante, quase um sussurro que temia existir. Queria ouvir. Precisava ouvir. Mas, ao mesmo tempo, um medo denso, quase palpável, se enrolava em torno do meu corpo, como se a verdade tivesse garras prontas para me despedaçar.
― Você decidiu carregar tudo sozinha. Encarou Aurélia de frente, mesmo quando ela exigia saber quem ousara tocar em você. Eu… no início, recuei. Admito.
— Eu não conseguia chegar até você. Aurélia mantinha a Casa em alerta máximo, cada olhar era uma sentinela. Nas raras tentativas de sondar alguém próximo, a resposta era sempre a mesma, fria e cortante: “A menina foi encaminhada para tratamento”. Um outro falou: “ela está no porão. Não pergunte mais, se não quiser se queimar.”
― Mas eu já estava queimado — por dentro e por fora. Eu ia te puxar para quê? Para uma fuga cega, sem plano, sem destino, com a Rede caçando cada passo nosso?
— Para qualquer coisa que não fosse me deixar trancada no escuro — respondi, surpresa com a firmeza da minha voz. — Você já tinha feito isso uma vez.
Ele fechou os olhos por um segundo, como se aceitasse o golpe.
— Sim… eu te deixei — admitiu, a voz quase se desfazendo no ar.
— Mas não foi ali, não naquele instante. Isso aconteceu meses depois e… para que você compreenda de verdade, preciso te levar de volta ao lugar onde dividimos nossos dias. Talvez, cercado pelas mesmas paredes, pelo mesmo cheiro, sua memória encontre o caminho de volta.
Deixei a proposta dele suspensa entre nós, como um fio invisível prestes a se romper.
— Então… por que voltar agora? — minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia, carregada de um peso que não queria admitir. — Por que reaparecer na minha vida como Alexandre? Por que rondar, mandar mensagens enigmáticas, oferecer “pistas” em troca de minutos roubados… quase beijos?
Ele inspirou devagar, o ar inflando o peito, as narinas se abrindo num gesto que parecia conter algo maior do que palavras.
— Por quê?
Fez uma pausa. Então, ergueu o olhar e me prendeu nele com uma intensidade que me obrigou a não desviar.
— Descobri... — a respiração dele se misturou à minha — …que você estava viva.
Meu coração reagiu antes que eu pudesse controlar, disparando num salto seco, como se reconhecesse algo que minha mente ainda tentava negar.
— Como?
Ele deu de ombros.

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